Manutenção e cuidado como arte a partir do video “Recepcionista” (e o que aprendi com Mierle L. Ukeles)*

Adriana Granado (UFRS)_

Resumo: Este artigo desenvolve uma reflexão a partir de um trabalho autoral de 2023, Recepcionista, estabelecendo um diálogo com questões relacionadas aos estudos de gênero e feministas. O texto reflete sobre o papel subalterno que ainda hoje é majoritariamente imposto à mulher bem como as atividades de cuidado. A obra da artista Mierle Ukeles será a principal interlocutora deste texto, que contará ainda com contribuições de Silvia Federici, Joan Tronto e Françoise Vergès.

Palavras-chave: Cuidado e manutenção; Arte e vida; Estudos feministas.

Abstract: This article develops a reflection based on an authorial work from 2023, Recepcionista, establishing a dialogue with issues related to the gender and feminist studies. The text reflects on the subordinate role that is still largely imposed on women today, as well as care activities. The work of artist Mierle Ukeles will be the main interlocutor of this text, which will also feature contributions from Silvia Federici, Joan Tronto and Françoise Vergès.

Keywords: Care and maintenance; Art and life; Feminist studies.

Uma obra autoral: Recepcionista (2023)

Durante uma hora e meia num sábado à tarde qualquer recepciono o público, dou informações e respondo a dúvidas em frente ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Porto Alegre). Essa ação gerou um vídeo de dez minutos intitulado Recepcionista (2023). O câmera está a 12 metros de distância, fazendo com que os visitantes não estejam cientes de participarem do vídeo. No registro, é notável como o tédio se instaura, adicionando mais uma camada ao vídeo. Abrindo a porta para 96 pessoas, respondo a perguntas como: “onde fica a mostra sobre tapeçaria?”, “qual é o valor para entrar?”, “onde fica o auditório?”, “tem folder das exposições?”.

Ao contrário de trabalhos de performance que buscam inserir um estranhamento nas situações apresentadas para revelar relações ali implícitas, assumo a estratégia de me manter desempenhando a função usual de profissionais destas áreas. Em Recepcionista, minha invisibilizaçãoentra em choque com o fato de minha figura permanecer bem visível, interagindo constantemente com o público. Tal paradoxo transparece na filmagem, em que, mesmo sem ser notada, apareço em evidência na tela.

O vídeo é mudo. O não registro dos diálogos corrobora com os gestos e situações típicas da prestação de serviço de recepcionistas ou de outros trabalhos do gênero. Ressalto ainda o seguinte paradoxo: mesmo eu estando em um espaço tradicional direcionado à apreciação de arte, o local de minha permanência e o desempenho de minha função são enxergados como não artísticos. Minha atividade, restrita a apontar o caminho da arte “de verdade”, faz de mim um ser invisível.

Este trabalho trivial, banal e repetitivo, ao ser exibido como arte, traz à luz a invisibilização e desvalorização daqueles que exercem essa função. Sabe-se, no entanto, que a exposição de obras de arte não poderia acontecer sem um trabalho permanente de manutenção e cuidado: de limpeza, de segurança, de atendimento, etc.

Assim como outros artistas recentes, como Amador e Jr. SegurançaPatrimonial Ltda., a inclusão de gestos artísticos para personagens que, dentro de um museu, realizam prestação de serviços, não apenas questiona as fronteiras entre arte e vida cotidiana, como também confere dignidade e importância a seres invisibilizados no espaço museal. De acordo com reportagem sobre o duo, formado por Antônio Gonzaga e Jandir Jr.,

*Artigo publicado na Revista Valise, edição de dezembro/23, foi atualizado e modificado em janeiro/24.

(Cont.)