Lina Bo Bardi: 77 Anos entre os Homens

Bruna Villas-Bôas Dória Lins (USP) & Maria Cecilia Loschiavo dos Santos (USP) _

Resumo: Este artigo se debruça sobre a trajetória pioneira da arquiteta, designer e diretora Lina Bo Bardi a partir da perspectiva do gênero. Direcionando o pensamento crítico segundo a quebra de paradigmas teóricos e estruturais dentro do campo da história do design. Neste sentido, aponta a utilização do gênero como categoria de análise em busca de ressaltar a importância de estudos sobre a mulher. Como procedimentos metodológicos este artigo baseia-se em uma revisão sistemática de literatura das obras de Buckley (2020), Kirkham (2001), Pierrot (2005) e Lima (2021), além de contar com o método de pesquisa documental a partir da análise do acervo de periódicos da biblioteca pública dos Barris em Salvador e de documentos inéditos pertencentes ao Instituto Bardi, em São Paulo. Os resultados desta pesquisa revelam uma perspectiva crítica e reflexiva sobre o percurso para o reconhecimento de uma arquiteta e designer no Brasil do século XX e sua relação com a cultura e sociedade.

Palavras-chave: Lina Bo Bardi, Gênero, Design, Mulher

Abstract: This paper looks at the pioneering career of architect, designer, and director Lina Bo Bardi from a gender perspective. It directs critical thinking toward breaking down theoretical and structural paradigms within design history. In this sense, it points to the use of gender as a category of analysis to highlight the importance of studies on women. As methodological procedures, this article is based on a systematic literature review of the works of Buckley (2020), Kirkham (2001), Pierrot (2005), and Lima (2021), as well as the method of documentary research based on the analysis of the collection of periodicals from the Barris public library in Salvador and unpublished documents belonging to the Bardi Institute in São Paulo. This research reveals a critical and reflective perspective on the path to recognition of an architect and designer in 20th-century Brazil and her relationship with culture and society.

Keywords: Lina Bo Bardi, Gender, Design, Women

Ao longo de sua vida, Lina Bo Bardi desenvolveu parcerias com colegas do gênero masculino em uma escola onde era uma das pouquíssimas mulheres de sua turma e sem a presença de professoras. Com formação multidisciplinar entre os campos artísticos e arquitetônicos, Lina transitou em quase todas as esferas projetuais que dialogam entre arte e racionalidade, disciplinas duras e moles, tendo produzido desde joias, figurinos para o teatro a móveis, cenografia e uma arquitetura excepcional.

Nasceu e cresceu na Itália ainda na primeira metade do século XX, em uma época repleta de problemas sociais e econômicos no continente europeu, em uma Itália de cultura patriarcal em que os papéis de submissão estavam reservados às mulheres (LIMA, 2021). Durante as primeiras décadas de vida de Lina, a Itália seguia os padrões de gênero binário e hierárquico impostos pela Igreja católica junto ao regime fascista que ao reduzir e adaptar a imagem pública e privada da mulher a seus interesses políticos, criou dois estereótipos opostos “[...] reforçou e politizou o modelo dominante e ambiguamente moderno da mulher-mãe, vangloriada como caseira, forte e produtiva, em contraposição à mulher autônoma, repudiada como urbana, decadente e estéril.” (LIMA, 2021, p.19)

Lina, pertencente a uma família de classe média foi educada a partir do molde binário imposto pelo regime fascista, no qual meninas de famílias menos ricas eram educadas para seguirem um modelo heteronormativo, doméstico e reprodutivo. Deste modo, mulheres que se arriscavam a contrariar este padrão estavam fadadas a sofrer retaliações sociais e cair em um limbo de olhares preconceituosos e rejeição social. Lina, no entanto, arriscou fugir deste modelo católico-fascista de “boa-moça”, ainda que sua mãe a educasse para que ela seguisse o exemplo social das demais meninas de sua idade. No entanto, desde muito jovem ela buscou se aventurar por estradas não convencionais para meninas e mulheres da sua época e seguiu empenhada em construir sua própria independência e autonomia, escolhendo inicialmente ingressar no Liceu Artístico (1933) e posteriormente, entre 1934 e 1939 e a Facoltá di Architettura da Università degli Studi di Roma, onde se formou arquiteta. Ambas as escolhas serviram como bússola para Lina chegar ao seu objetivo: ser uma mulher longe dos padrões propostos pela igreja católica e regime fascista.

Tendo se formado aos 25 anos, em uma idade já quase desfavorável ao casamento, Lina claramente se distanciava da educação ensinada por sua mãe e se aproximava da construção da identidade de uma mulher a frente do seu tempo. Em um contexto no qual mulher e carreira eram palavras antônimas, como exemplifica Michele Pierrot (2005, p.255) ao reforçar que “[...] fazer carreira é, de qualquer maneira, uma noção pouco feminina; para uma mulher, a ambição, sinal incongruente de virilidade, parece deslocada. Ela implica, em todo caso, em uma certa renúncia, sobretudo do casamento.”

A rota escolhida por Lina para seguir, desde cedo, carreira profissional seguia na contramão dos padrões ocidentais da época e deu início a uma trajetória de 77 anos de trabalho entre os homens, já que, ela estava na contramão das suas contemporâneas e durante sua trajetória de vida, acabou criando para si, poucos exemplos de mulheres as quais ela tinha admiração.

  • Durante sua vida, suas relações se basearam em parcerias com pessoas do gênero masculino, sobretudo no campo do trabalho. A ausência de professoras na Faculdade de arquitetura, a escassez de colegas de profissão do gênero feminino e a maior parte das suas referências masculinas, sem dúvidas, a levou a sentir falta de mais mulheres ocupando posições de reconhecimento, poder e liderança. Lina que sempre consolidou seu pensamento baseado nas filosofias Marxista e Gramisciniana, teve poucos exemplos de mulheres as quais ela buscava espelhar-se. Uma delas era a Lou Andreas Salomé, que ainda hoje não possui o devido reconhecimento de suas obras nos campos em que atuou e suas publicações seguem sendo de difícil acesso, por serem pouco traduzidas até mesmo para o inglês. O exemplo da Lou Salomé nos coloca frente a um paradoxo: não havia mulheres fora dos padrões mulher-mãe-esposa ou nenhuma mulher era suficientemente importante ao ponto de se tornar objeto de registro na história?

    Sobre esta questão, a filósofa Márcia Tiburi (2019, p.48) ressalta que os homens produziram discursos, apagaram os textos das mulheres e se tornaram os donos do saber e das leis. Tudo que sabemos sobre as mulheres foi contato pelos homens. Da filosofia ao direito. “[...] Demorou para que as mulheres conquistassem o seu lugar de fala, o seu direito de dizer o que aconteceu, o direito de pesquisa e de memória. Nesse sentido, o feminismo se construiu a partir desta conquista de liberdade de expressão.”

    Refletir sobre a ausência de mulheres em evidência intelectual na Europa da primeira metade do século XX pode até ser compreensível, visto todas as questões que envolviam a educação feminina neste período e o quão desafiador era romper com os protocolos sociais em busca de construir uma carreira ao invés de se dedicar ao lar. Porém, este panorama aponta para uma realidade atual, como afirmam Wirman e Brandes (2019) ao discorrer sobre o cenário no campo do design, no qual o papel do gênero se tornou peça vital na maneira como os programas educacionais historicamente sinalizam os mentores que situam a hierarquia de “gênero’ sobre os outros. Profissionais e acadêmicos em design ou arquitetura, por exemplo, discutem, ainda hoje a falta de modelos femininos proeminentes.

    [...] Um caso em questão é o de Dorte Mandrup, ‘Eu não sou uma arquiteta mulher. Eu sou um arquiteto’, apelo que ecoa ao longo desta discussão a favor do reconhecimento da igualdade feminina contra a dos homens ou do estabelecimento de uma ‘lista separada’ de mulheres bem-sucedidas. (WIRMAN; BRANDES, 2019, p.6) (Cont.)

    A falta do registro de mulheres na história e a ausência de exemplos femininos dentro dos campos das ciências sociais aplicadas, como design e arquitetura, reforça o fato de que houve uma tentativa de apagamento pelo patriarcado já que a história ocidental foi escrita por homens e evidenciou os homens. A história do design, por exemplo, se confunde com a história do designer, deste modo é difícil encontrar registros de mulheres e suas criações, bem como mulheres e suas trajetórias individuais. Enquanto os movimentos feministas eclodiam na Europa e Estados Unidos entre a primeira e segunda onda, Lina em uma busca por igualdade entre os gêneros,  se ocupava em fazer sua parte, longe de se aliar ao feminismo – muito criticado por ela, sobretudo na maturidade, mas travando uma luta com propostas anti-patriarcais ainda na Itália (LIMA, 2021, p. 111) “[...] ela pertenceu à primeira geração de mulheres que criou espaços próprios fora da esfera privada, introduzindo-se na esfera pública da cultura e da vida profissional.”

    Seu empenho pela igualdade entre as relações homem x mulher se apresenta como uma questão a se resolver no aspecto de reconhecimento profissional. Lina, há 60 anos já estabelecia relações complexas, e se dedicou em lutar pelo reconhecimento de sua atuação profissional tomando posições consideradas incisivas, no entanto, consistentes com sua luta por autonomia, independência, respeito e admiração. Seu desejo era ser equiparada socialmente à posição ocupada por pessoas do gênero masculino na sociedade, de modo a estabelecer relações igualitárias entre os diferentes gêneros em um espírito de companheirismo como apresentou em uma entrevista na coluna Assunto Errado do jornal Diário de Notícias em 1960 (figura 01).

    Em 1958, a fim de defender seus ideais, à sua maneira, em uma luta sutilmente travada durante o período em que escreveu para o jornal Diário de Notícias (1959), em Salvado-Bahia.  Lina usou do seu lugar como “esposa e representante do Pietro Maria Bardi” para entrar no editorial do jornal, que pertencia ao conglomerado Diários Associados do então amigo e parceiro profissional do casal Bardi, Assis Chateaubriand, e na ausência do então chefe e diretor, Odorico Tavares, assumir uma posição de liderança sendo a única mulher a trabalhar naquele periódico em 1958.

    “[...] Entrou pela porta da frente do Diário de Notícias e andou até a redação, onde, na época, era raro se ver mulheres. Usando sua experiência editorial prévia, com ajuda dos tipógrafos e sem nenhum temor, ela produziu algumas das páginas mais inovadoras da história do desenho gráfico nordestino.” (LIMA, 2021. P.219)

    A trazer uma nova diagramação para as páginas dos jornais, utilizando seu conhecimento e repertório adquiridos desde seus trabalhos com Gio Ponti ainda na Itália e posteriormente, na Revista Habitat já no Brasil, ampliou o espaço ocupado por mulheres nas matérias veiculadas no jornal. E se valeu do design editorial como ferramenta para expandir o espaço denominado anteriormente por “Da mulher” - que consistia em apenas uma coluna do jornal dedicada às mulheres, e apresentava um conteúdo direcionado ao casamento e ao lar. E criou a “Página feminina”, ao reconfigurar esse espaço, Lina trouxe uma outra proposta de conteúdo, alinhada com suas expectativas de uma relação social igualitária entre os gêneros feminino e masculino (figura 02).

    Durante o curto período em que esteve à frente do jornal, ela apresentou entrevistas com mulheres em busca de mostrar o trabalho desenvolvido por pessoas do gênero feminino. Mas, infelizmente, esta sutil luta de Lina no jornal Diário de Notícias durou pouco tempo. Logo que o Odorico Tavares retornou a Salvador e consequentemente a chefia do editorial do Jornal, as matérias com e sobre mulheres voltaram a ocupar um espaço menor e o conteúdo direcionado a elas se voltou novamente para as colunas sociais, conselhos de bons modos, moda-consumo e cuidados com o lar e crianças. Este pequeno recorte do curto trabalho de Lina no Diários Associados, reforça o que Michelle Pierrot (2005) apresenta em “As mulheres ou os silêncios da história” quando nos põe frente a frente com os apagamentos históricos e traz a luz o fato de que toda história ocidental foi contada e escrita por homens. Em um jornal local, onde os homens compõem toda equipe de trabalho do editorial, as mulheres pouco aparecem nas páginas. E quando aparecem são objetificadas, ou estão ali como sujeitos à sombra de um outro homem, à margem social, somente como consumidoras de produtos de beleza e/ou donas de casa.

    O trabalho feito por Lina mostrou uma realidade, até então, desconhecida para aqueles leitores e leitoras do Diário de Notícias e nos prova que os registros sobre as mulheres e das mulheres “[...] são por si mesmos índices de sua presença e sinal de uma tomada da palavra que se amplia e faz recuar o silencio, e as vezes tão intenso que chegamos a nos perguntar: ‘Uma história das mulheres seria possível?” (PIERROT, 2005. P.14) Atualmente não é difícil responder a essa pergunta, mas há 60 anos, outras mulheres estavam no front lutando para tornar possível esta resposta.

    Ainda sobre a luz lançada por Pierrot (2005), ao longo do tempo, as mulheres foram mais imaginadas que descritas e contadas. Perpetuar a história delas é chocar-se contra o bloco de representações e buscar compreender como essas mulheres viviam, como fizeram e quais eram as circunstâncias em que suas ações eram feitas. Em geral “[...] os modos de registro das mulheres estão ligados à sua condição, ao seu lugar na família e na sociedade. (PIERROT, 2005, P. 39), um exemplo disto pode ser apresentado ainda utilizando o jornal Diário de Notícias. Desta vez não mais sob a direção editorial de Lina Bo Bardi, mas sob o comando do diretor Odorico Tavares, ao fazermos um recorte sobre a divulgação da inauguração do Museu de Arte Moderna da Bahia, onde Lina foi diretora, idealizadora, curadora, arquiteta e principal ferramenta para materialização de um equipamento público que trouxe para o Brasil o registro histórico, cultural e artístico do seu povo.  Nos jornais da época, os créditos da criação do Museu ficaram todos voltados ao então governador Juracy Magalhães e a sua esposa Dona Lavínia Magalhães – que como outras mulheres, teve seu nome em destaque justamente por sua posição de esposa de um homem importante. Em cartas trocadas entre Lavínia e Lina é possível perceber que o papel de Dona Lavínia Magalhães na criação do MAMBA foi muito além da posição de esposa do governador, entretanto, esse registro permanece oculto diante da narrativa noticiada nos jornais da época.

    A relação mulher-esposa faz parte de uma outra problemática envolvendo o apagamento das mulheres durante o século XX. Mulheres casadas com “homens bem-sucedidos” eram evidenciadas por serem as companheiras por trás deles. E profissionalmente, no campo da arquitetura e do design, elas eram consideradas auxiliares, parceiras que os ajudavam para que eles tivessem destaque em suas produções. E mesmo trabalhando em dupla, por vezes as criações feitas por essas mulheres não recebiam a devida autoria. A exemplo da Charlotte Perriand (1903 – 1999) que foi amiga de Lina Bo Bardi e durante o período em que viveu, não teve os devidos créditos de suas criações relacionadas ao seu nome, enquanto trabalhou com Le Corbusier, por exemplo, os créditos autorais de seus projetos ficaram todos com ele. Em 2019 Perriand ganhou uma exposição em Paris com todos os créditos de obras desenvolvidas por ela e até então creditadas ao Corbusier. O mesmo ocorreu com Ray Eames que durante muito tempo foi considerada a mulher por trás do respeitado designer Charles Eames (KIRKHAM, 2001).

    Lina Bo Bardi, no entanto, sempre se preocupou em creditar suas obras, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, ainda que, de forma muito discreta. Em uma conversa com o Marcelo Ferraz ele pode deixar claro que em São Paulo Lina era desconhecida até mesmo no início de sua idade madura, tendo já passado pela FAUUSP como docente. E com o MASP da paulista construído, poucas pessoas sabiam de quem era a autoria daquele prédio. Algumas pessoas até especulavam que uma mulher havia projetado, mas não sabiam dizer se essa mulher era filha ou esposa do Pietro Maria Bardi. Um exemplo comum tanto no campo do design como no campo da arquitetura, uma vez que as intervenções das mulheres foram constantemente ignoradas como afirma Cheryl Buckley em Made in Patriarchy II: Researching (or Re-Searching) Women and Design (2020) ao reforçar a ideia de que as poucas mulheres que fazem parte da literatura de design são contabilizadas dentro da estrutura do patriarcado, em geral, as mulheres foram definidas como usuárias de produtos ou sub somadas ao nome dos seus maridos, amantes, pai ou irmão. (BUCKLEY, 2020).

    E já na década de 1970, tendo projetado o MASP da Av. Paulista, revitalizado o Solar do Unhão na Bahia, dirigido o MAMBA, projetado a Casa de Vidro, criado móveis no estúdio de Arte Palma, publicado artigos em revistas como a Arte Vogue e Habitat, desenhado roupas e joias, trabalhado na DOMUS e vindo da Itália, ainda assim, Lina Bo Bardi era apenas mais uma, ou quando estava em lugar de evidência, a mulher do professor Bardi. Pietro Maria Bardi, com quem foi casada, embora parceiro de vida e trabalho de Lina, atuando em parceria em projetos como MASP e revista Habitat, por tantas vezes teve o reconhecimento frente a projetos elaborados pela dupla, enquanto a contribuição de Lina estava condicionada a ser a Signora Bardi (LIMA, 2001).

    Durante sua vida, Lina pode distanciar sua imagem da figura de esposa do professor Bardi, paradoxalmente, na Bahia dos anos 1960 e “[...] ao afirmar sua independência, transformou-se de Signora Bardi em d. Lina, como ficou conhecida por uma geração mais jovem de artistas e intelectuais de vanguarda.” (LIMA, 2021. P210) Como Caetano Veloso e Gilberto Gil, que possuem, até os dias de hoje, profunda admiração por Lina Bo Bardi. Por ao menos duas décadas este reconhecimento ficou entre uma pequena parcela de jovens baianos que conviveram com ela no período em que Lina dirigiu o Museu de Arte da Bahia (1959 – 1964).

    Esta falta reconhecimento do trabalho de Lina levou, por exemplo, à demolição de um de seus projetos arquitetônicos em Salvador, a Casa Chame-Chame (1959-1984). Com o golpe de 1964 e seu retorno a São Paulo, Lina ficou anos sem realizar projetos arquitetônicos. A casa do Chame-Chame foi demolida sem que ela pudesse vê-la pronta. Os demais projetos realizados por Lina não foram demolidos por terem sido tombados. Lina, sabia utilizar seus privilégios a seu favor e não hesitou em tentar conservar suas criações correndo atrás do tombamento de suas obras antes que elas fossem modificadas ou demolidas.

    Atualmente, embora as narrativas históricas busquem visibilidade para o trabalho das mulheres, especialmente no design, há um longo caminho a percorrer até que mulheres, artistas, designers e arquitetas se tornem parte protagonistas da história. Esta constatação é inerente a construção de uma história onde a maior parcela de reconhecimento pertence a sujeitos do gênero masculino. Mesmo após 30 anos de sua morte, o reconhecimento de Lina Bo Bardi é recente e tardio, comparado à importância de sua contribuição para a arquitetura e para o design. Suas primeiras biografias foram publicadas em 2021, ambas escritas por homens.

    Em seus 77 anos de vida, Lina rompeu barreiras, assumiu papéis nunca ocupados por seus pares e travou lutas pelo reconhecimento de suas criações. Paradoxalmente, enquanto lutava pelo seu reconhecimento e buscava dar vozes a outras mulheres. Embora em uma posição de muitos privilégios Lina percorreu caminhos duros para ser reconhecida pelo seu trabalho. Ela reconhecia o seu posicionamento social e sabia agir conforme fosse necessário para ir em busca de seus objetivos. Na contramão do patriarcado e do feminismo, a sua busca por igualdade entre os gêneros, ecoou seu posicionamento crítico contra as feministas norte-americanas da segunda onda por possuírem “discursos equivocados que buscavam uma competição brutal entre homem e mulher” (BARDI, 1960), além de possuírem uma fala direcionada as mulheres de uma classe média branca, já que, como afirmou a própria Lina Bo Bardi em 1960, "a mulher proletária trabalha". Um fato questionado também pelas feministas negras já na década de 1980. Apesar de seu posicionamento duro, Lina abriu portas serviu como exemplo para outras mulheres continuarem a buscar reconhecimento de suas produções e espaço na história das ciências sociais aplicadas.

    Atualmente há diversas publicações sobre o trabalho feito por Lina Bo Bardi, mas lamentavelmente o maior prêmio da arquitetura lhe foi concebido quase 30 anos após a sua morte. Será que daqui a 30 anos ainda teremos outras mulheres reconhecidas apenas após a sua morte? Deste modo, reforço a importância do gênero como categoria de análise para o reconhecimento da atuação feminina nos campos da arte, arquitetura e design. Além disso, apresenta uma releitura do percurso de uma mulher reconhecida tardiamente nas ciências sociais aplicadas no Brasil. Sua trajetória serve de referência para outras mulheres em busca de reconhecimento em seus campos de atuação, contribuindo para que suas vozes ecoem na contemporaneidade dentro e fora dos campos das artes, do design e da arquitetura. Como resultado, este artigo alinha-se com o discurso de Michelle Pierrot (2005, p.14): "[...] Escrever a história das mulheres supõe que elas sejam levadas a sério, que se dê à relação entre os sexos um peso, ainda que relativo, nos acontecimentos ou na evolução das sociedades".

    REFERÊNCIAS

    BUCKLEY, Cheryl. Made in Patriarchy II: Researching (or Re-Searching) Women and Design. Design Issues, v. 36, n1, p. 19-29, 2020.

    GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1995.

    KIRKHAM, P. (Org.) Women designers in the USA: diversity and difference. New York: Yale University Press; New Haven and London, 2001.

    LIMA, Zeuler R. M. de A. Lina Bo Bardi: o que eu queria era ter história. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. Cristina Fino, Teté Martinho (em colaboração com o autor)

    LORDE, A.; HOLANDA, H. B. (Org.). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019.

    PIERROT, M. As mulheres ou os silêncios da história. [Trad. Viviane Ribeiro]. Bauru: EDUSC, 2005.

    PERROTA-BOSCH, Francesco. Lina: uma biografia. São Paulo: Todavía, 2021.

    TIBURI, M. Feminismo em comum: para todas, todes e todos. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.

    WIRMAN, H. BRANDES, U. Gender in Design an Overview. Cubic Journal, n.2, 2019.

    Legenda para as Imagens:

    Figura 01 – Página Assunto Errado do Jornal Diário de Notícias de 06 de outubro de 1960. Foto: Bruna Dória

    Figura 02 – Páginas do Jornal Diário de Notícias. À Esquerda, edição de 04 de janeiro de 1958, antes de Lina Bo Bardi assumir o editorial do jornal e à direita, edição de 24 de agosto de 1958. Foto: Bruna Dória