Letícia Parente: entre a performance e o arquivo

Letícia Parente: between the performance and the archive

Caroline Vieira Sant’Anna (UFBA) (1)_

Resumo: O artigo propõe pensar as relações entre performance artística e performance de gênero e como os estudos de performance nos deixam ver esses entrelaçamentos a partir do corpo e do vídeo nos trabalhos produzidos pela artista Letícia Parente entre as décadas de 1960, 1970 e 1980.

Palavras-chave: performance artística; performance de gênero, repertório e arquivo.

Abstract: The article proposes to think about the relationships between artistic performance and gender performance and how performance studies allow us to see these intertwinings through the body and video in the works produced by the artist Letícia Parente between the 1960s, 1970s and 1980s.

Keywords: artistic performance; genre performance, repertoire and archive.

Um dos aspectos mais importantes é que as contradições permanecem não resolvidas, mas, antes mesmo realçadas de uma forma ora sutil, ora repetitiva, constante ou fugaz. (Letícia Parente)


Introdução

A curadora e crítica de arte Ligia Canongia (2005) define o período das artes visuais dos anos de 1960 e 1970 no Brasil como um espaço-tempo verdadeiramente contemporâneo, tanto no sentido de sua práxis com as diversas mídias em uso na época, quanto com a escolha em colocar o corpo em cena, explorando as múltiplas sensorialidades. O corpo tornou-se o centro do debate e as artistas iniciaram “[...] um laboratório de invenções, através de performances, interferências urbanas, filmes, fotografias, vídeos, como manifestações antiacadêmicas que pareciam esgotar a tradição” (2005, p. 56).

Apesar das experimentações estéticas estarem com todo o ímpeto, vivíamos, nesse período, um momento de recrudescimento da censura após a implementação do AI-5, em 1968. O AI-5 foi uma reação ostensiva a tudo que pudesse representar uma ameaça, instituindo-se a pena de morte, a prisão e o combate a qualquer tipo de enfrentamento político. Nesse cenário, ainda de modo tímido, visto que os holofotes estavam voltados para as ações realizadas pelos artistas Arthur Barrio (1945-), Antônio Manuel (1947-), Cildo Meirelles (1948-), Paulo Brusck (1949-), entre outros nomes que performavam o gênero masculino, vai se tornando cada vez mais notável a presença das mulheres na cena artística. Entre elas, estavam Ana Maria Maiolino (1942-), Iole de Freitas (1945-), Martha Araújo (1943-), Celeida Toste (1929-1961), Regina Vater (1943-), Sonia Andrade (1935-2022), Letícia Parente (1930-1991), Ana Bella Geiger (1933-) e muitas outras. Ainda que os trabalhos tivessem proposições estéticas distintas, o corpo, na maior parte deles, desempenhou um papel importante no que diz respeito às abordagens tratadas, que tanto se direcionavam para o contexto político do país quanto para as questões políticas em torno do gênero.

Nas palavras da curadora e crítica Andrea Giunta (2018), o corpo foi redescoberto tanto na América Latina quanto internacionalmente. O que se viu, a partir dos anos de 1960, foi uma inversão desse corpo e as formas como ele fora visto até o momento, sendo representado através da nudez, das imagens da maternidade, “[...] originalmente ancorados em parâmetros de representação regulados pelas convenções da arte acadêmica do século XIX e, depois, pelas convenções do modernismo do começo do século XX” (2018, p. 29).

Diante dessas transformações, indagamos: como esse corpo artístico expressou experiências, sentimentos, modos de agir nesse espaço-tempo, anos 1960-1970, nos informando ou possibilitando inferir pistas sobre os contextos sociais e culturais existentes em torno do gênero?

Embora saibamos que muitas artistas dessa época não assumiram para si a bandeira do feminismo, principalmente nos países da América Latina, a pergunta nos permitiu percorrer as poéticas visuais de muitas delas com o intuito de refletir sobre como as pautas de gênero em articulação com as performances artísticas, poderiam nos apontar para questões em torno do feminino. Importante considerar que essas questões só foram possíveis de serem acessadas em razão das performances terem sido filmadas, documentadas e compartilhadas na ambiência digital. Foi através do encontro com esses arquivos que podemos olhar para essas imagens e assim tentar elaborar um debate em torno do corpo da mulher, as discussões em voga, os corpos que estavam em protagonismo e quais estavam esquecidos, ou não dispunham da mesma política de visibilidade, neste recorte temporal dos anos de 1960/1970. (Cont.)