Artistas mulheres e experiências coletivas no espaço público

Cristiane Silva Novais (UFBA) (1) & Ludmila da Silva Ribeiro de Britto (UFBA) (2) _

É possível falar sobre os corpos que permeiam as ruas, individual ou coletivamente, mas pouco se questiona sobre a liberdade que esses corpos possuem – ou qual liberdade lhes é concedida. Podemos falar, portanto, em uma experiência corporal na cidade plenamente atravessada por referenciais sociais, machistas e misóginos, por excelência. Essa dinâmica é resultado de uma relação conflituosa instaurada como mecanismo de poder, cujo objetivo busca limitar e restringir o acesso das mulheres a determinados espaços através de normas advindas de estereótipos sociais codificados: ao masculino, o público e a rua; ao feminino, o privado e a casa. Desse modo,

Ao tentar compreender a situação e a subordinação das mulheres nas cidades contemporâneas, constatou-se que os lugares, vivências e atividades das mulheres ainda hoje marcam diferenças bastante notáveis entre elas e os homens. Não se pretende com isto afirmar que não existam experiências urbanas contemporâneas partilhadas por homens e mulheres, mas sim assinalar que nas suas casas e nas suas atividades domésticas, na sua mobilidade e formas de utilização dos meios de transporte, nas suas atividades e participação nas comunidades urbanas, no cuidado e apoio dos membros da família, no trabalho remunerado ou "gratuito", no uso de serviços e lojas urbanas, as mulheres muitas vezes têm mais em comum com outras mulheres do que com os homens. (Yandle, 1998, p. 18, tradução nossa)

Essa dualidade é também observada por Griselda Pollock (1988), em seu texto A Modernidade e os Espaços de Feminilidade, no qual aborda a esfera pública e a privada ao teorizar sobre a modernidade e os espaços de feminilidade. Segundo a autora, a primeira é estabelecida pelo mundo do trabalho reprodutivo, da decisão política, do governo, da educação, da lei e do serviço público, cada vez mais exclusiva aos homens; enquanto a segunda é estabelecida pelo mundo do lar, das esposas, dos filhos e das empregadas, destinada às mulheres - corroborando, portanto, em um estilo de vida burguês. Essa relação é, ao mesmo tempo, causa e efeito, uma vez que “os espaços da feminilidade são aqueles a partir das quais a feminilidade é vivida como posicionalidade no discurso e na prática social” (Pollock, 1988, p. 128). Nessa direção, nota-se que os espaços das cidades são construídos como resultado dessa divisão sexual, carregado de significados sociais e culturais, afetando homens e mulheres de maneira distinta. Ela explica:

“A modernidade está conosco, ainda com mais força, na medida em que nossas cidades se tornam, no exacerbado mundo da pós-modernidade, cada vez mais um lugar de estranhos e de espetáculo, enquanto as mulheres estão cada vez mais vulneráveis a ataques violentos quando saem em público e são privados do direito de se deslocar pelo espaço urbano com segurança. Os espaços da feminilidade ainda regulam a vida das mulheres – desde quando fogem da opressão dos olhares intrusivos dos homens nas ruas, até quando sobrevivem a ataques sexuais possivelmente fatais.” (Pollock, 1988, p. 146)

Ademais, Pollock traz questões pontuais e objetivas ao refletir sobre a experiência e os intercâmbios que as mulheres não acessariam nos espaços de modernidades evocados para os homens – territórios atravessados pelo lazer, consumo, espetáculo e dinheiro. Essa assimetria histórica (social, econômica e subjetiva) enfatiza o imaginário coletivo dos espaços que podem ser lidos como da masculinidade e da feminilidade. Nesse processo contínuo, “a construção social, sexual e psíquica da feminilidade é constantemente elaborada, regulada e renegociada” (Pollock, 1988, p. 141). Para tanto, Michelle Perrot (2019) utiliza o termo “dissimetria do vocabulário” para ilustrar esses desafios, os quais fomentam a disparidade na ideia do homem público ser honrado e da mulher pública ser uma vergonha.

Diante disso, considerando as reflexões trazidas pelo texto mencionado, é preciso questionar as tendências do poder patriarcal, analisar historicamente uma determinada configuração da diferença e denunciar “[...] as inúmeras formas de violência sexual, física ou simbólica, que aniquilam as possibilidades de inscrição diferenciada das mulheres no mundo público e no privado” (Rago, 2013, p. 35). Para tanto, é necessário interseccionar sexo, classe e raça, uma vez que novas fronteiras emergem ao confrontar o funcionamento secular da sociedade burguesa. Nesse sentido, Françoise Vergès propõe uma análise a partir de uma matriz de opressão múltipla, organizada por premissas antipatriarcais, anticoloniais e anticapitalistas. Em seu livro, Um Feminismo Decolonial, publicado em 2020, a autora ilustra como maneiras distintas de acesso ao espaço público são afetadas pelas condições femininas das mulheres burguesas antagônicas às das proletárias. De fato, as continuidades do período colonial persistem no cotidiano da nossa sociedade, operando a marginalização e expondo os limites e as contradições do "feminismo civilizatório", o qual endossa políticas imperialistas em relação aos países periféricos, resultando na opressão de populações (Vergès, 2020), especialmente as racialmente oprimidas e da classe trabalhadora; elas que limpam e cuidam dos espaços para que o patriarcado e o capitalismo funcionem. O espaço público é, portanto, uma faceta importante nessa discussão, uma vez que ele torna “visível e palpável a estrutura social tal qual ela é” (Berth, 2023, p. 112). Em síntese, como bem pontuado por Nadja Monnet (2013, p. 220-221), “sua vocação igualitária, seu princípio de acessibilidade, que em teoria o governa, está longe de ser uma realidade na prática”, uma vez que “a esfera pública não é um espaço de e para todos”. Apesar disso, é nesse espaço mediado pelo capital, onde acontece a “disrupção criativa da vida cotidiana” (Lippard, 2007, p. 475).

(Cont.)