Por uma arte menor: mulheres nas artes visuais
Ines Linke (UFBA)_
No Brasil, começamos o ano de 2023 com a promessa da reconstrução de políticas públicas e culturais negligenciadas e/ou abolidas durante os últimos anos. Conforme noticiários a “retomada” ocorreu com o decreto presidencial sancionado no primeiro dia do ano e que anunciou a recriação de instâncias e ações existentes até 2018. No discurso da retomada, o presidente eleito nos faz (re)lembrar sua primeira posse em 2002, como, também momentos anteriores relacionados à discursos sobre democracia cultural e igualdade de gênero:
“A alma do Brasil reside na diversidade inigualável da nossa gente e das nossas manifestações culturais. Estamos refundando o Ministério da Cultura, com a ambição de retomar mais intensamente as políticas de incentivo e de acesso aos bens culturais, interrompidas pelo obscurantismo nos últimos anos. Uma política cultural democrática não pode temer a crítica nem eleger favoritos. Que brotem todas as flores e sejam colhidos todos os frutos da nossa criatividade. Que todos possam dela usufruir, sem censura nem discriminações. Não é admissível que negros e pardos continuem sendo a maioria pobre e oprimida de um país construído com o suor e o sangue de seus ascendentes africanos. Criamos o Ministério da Promoção da Igualdade Racial para ampliar a política de cotas nas universidades e no serviço público, além de retomar as políticas voltadas para o povo negro e pardo na saúde, educação e cultura. É inadmissível que as mulheres recebam menos que os homens, realizando a mesma função. Que não sejam reconhecidas em um mundo político machista. Que sejam assediadas impunemente nas ruas e no trabalho. Que sejam vítimas da violência dentro e fora de casa. Estamos refundando também o Ministério das Mulheres para demolir este castelo secular de desigualdade e preconceito”. (SILVA, 2023)
Ao ouvir o discurso, voltamos os olhares para a realidade das mulheres no Brasil que desde sempre enfrentam distintas formas de violência e desigualdade na educação, no trabalho, nos espaços de poder, assim como no campo das artes.
Onde estão as mulheres nas artes visuais? Somos rememoradas repetidas vezes que as mulheres brasileiras se tornaram cidadãs somente em 1932 e que os processos, garantidores da sua participação em diferentes setores da vida pública, bem como das áreas de conhecimentos, estiveram marcados por dinâmicas, agências e movimentos que vislumbravam a transformação e melhoria desta realidade. Entretanto, apesar das mudanças ao longo das últimas décadas, ao observar os acervos e coleções de algumas instituições, percebemos certa defasagem no que se refere a presença de artistas femininas. Na história das artes, também encontramos lacunas concernentes à abordagem dos protagonismos femininos e pós feministas em reconhecer as ações de mulheres para expor e contrapor-se às desigualdades e violações de direitos humanos de forma direta e indireta.
A emancipação das mulheres e a discussão de questões de gênero, classe, etnia, idade e de marcadores geográficos andaram em paralelo aos movimentos sociais e a politização dos artistas nos anos 1960 e 70 em que foram desenvolvidas e inseridas ações e estratégias contra a violência e a opressão da mulher. Desta forma, as artes tiveram participação ativa na construção de uma consciência que contribuiu na formulação da Constituição Federal de 1988 ao oferecer reconhecimento a grupos minoritários, a exemplo das mulheres e das comunidades tradicionais, tendo por foco formatar novos processos para formação de uma sociedade mais inclusiva e equitativa. Como símbolo do processo de redemocratização do Brasil foram estabelecidos os direitos e os deveres dos cidadãos e cidadãs, a partir do reconhecimento da existência de desigualdades, instituindo deste modo o acesso universal à educação, à saúde e à cultura, como, também a obrigação de proteger a todos e as diversas matizes culturais (indígena, a popular e a afro-brasileira) e o meio ambiente, ampliando consequentemente os direitos sociais e trabalhistas.
Embora, no Brasil, o feminismo não tenha se configurado enquanto movimento organizado nas artes visuais, as mulheres artistas, em suas ações e engajamento fomentaram a discussão sobre seu papel social, corpos, direitos, etc. Observe-se que nos anos 1980, iniciativas como o Festival das Mulheres nas Artes e a criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) que direcionou a atenção a eliminação da discriminação contra a mulher e sua participação nas atividades políticas, econômicas e culturais do país.
Assim, neste trabalho, olhamos para um edital singular, destinado à produção artística de mulheres artistas, objetivando pensar no seu lugar de relevância, a partir de alguns projetos realizados neste contexto. O edital, foi publicado em contexto específico e decorrente de políticas culturais ocorridos durante os anos de 2003 a 2010. Nesse contexto, destacamos a implementação dos Pontos de Cultura e da preservação do patrimônio material e imaterial, através do Programa Cultura Viva. Eram iniciativas que buscaram a valorização da diversidade cultural, o reconhecimento dos saberes populares, e, entre outros, a democratização e descentralização da cultura, a partir de uma série de ações e editais que reestruturaram o cenário artístico e que tiveram continuidade no primeiro governo Dilma, 2011-2014, que procurou destacar o papel das mulheres. Foi durante o governo da primeira presidente mulher que o Prêmio FUNARTE Mulheres nas Artes Visuais foi criado. O edital, publicado pelo Ministério da Cultura e a pela Secretaria de Políticas para as Mulheres, objetivava o reconhecimento das mulheres nas artes visuais por meio da seleção de projetos em âmbito nacional, e propunha fomentar ampla reflexão sobre a produção da visualidade contemporânea. (Cont.)
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O Prêmio FUNARTE Mulheres nas Artes Visuais, um edital voltado exclusivamente para pessoas do sexo feminino, teve apenas duas edições; uma em 2013 e outra em 2014. Em cada ano, por meio de uma convocatória nacional, foram selecionados dez projetos entre as inúmeras inscrições postadas. Os projetos aprovados delinearam um cenário a partir do qual foram evocadas a reflexões acerca do papel das mulheres nas artes visuais e suas contribuições para o campo das artes.
A edição 2013 contemplou dez projetos que propuseram a realização de processos, trabalhos, exposições, mostras, oficinas, intervenções urbanas, publicações, seminários, produção crítica e documental nas cidades de Vitória, Florianópolis, Belém, Campo Grande, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. Os projetos contemplados foram:
Em lugar nenhum/em todo lugar - Jacqueline Maria Carvalho Belotti (ES)
Translitorânea - Andrea Eichenberger (SC)
Projeções do feminino - Roberta Keli de Miranda Carvalho (PA)
Entre vários olhares - da pintura à intervenção - Ana Luisa Ruas (MS)
Sorterro - Juliana Notari Nascimento (PE)
Lembranças de minha carreira artística - Julieta de França (RJ)
Fragmentos Foníticos de um (si) - Maria Cristina Leal da Costa Antiquira Elias (SP)
Devastação - Paula Huven Almeida (MG)
Entre Saltos - Priscila Toscano (SP)
Atelier como espaço de conversa: diálogos femininos em foco na Subterrânea- Lilian Maus (RS)
As proponentes receberam R$ 70.000 como prêmio para realizar seus diferentes projetos em diversos lugares do Brasil. Vale destacar que o lugar da realização dos projetos não era necessariamente o lugar de residência das proponentes e que foram contempladas propostas das cinco regiões brasileiras, entretanto a distribuição não ocorreu de forma equitativa. Observe-se que foram contemplados cinco projetos do Sudeste, configurando 50% das premiações, dois do Sul e um para as três outras regiões: Norte, Centro Oeste e Nordeste.
No seguinte ano, os projetos contemplados foram
Por isso (não) provoque! - Denise Bendiner (SC)
Da escrita, delas, elas - Priscila Seixas (RJ)
Wilma Martins: Cotidianos/redesenhos - Fernanda Cardoso Lopes (RJ)
MATRIZ: Encontro de grafias femininas - Ana Claudia Barbosa Isidorio (CE)
Natureza morta RJ - Ines Linke (BA)
Ervas SP 2014: Ocupação Elevado Costa e Silva - Laura Lydia (RJ)
Maravilhas: Histórias e memórias afetivas - Rosana Almendares (RS)
Processos fotográficos: ensaios para uma poética experimental - Fernanda Antoun (RJ)
Das Urhaus/A Casa Primordial: O universo de Karin Lambrecht - Karine Medeiros Emerich (RS)
A01 [COD.19.1.1.43] – A27 [S/COD.], um livro de artista - Rosângela Rennó (RJ)
Além das investigações e processos artísticos, os projetos previam uma série de outras ações como palestras, exposições, publicação de livro, seminário, residência, produção de curta-metragem, mapeamento, oficinas, intervenções e produção de cordel, realizadas no decorrer do primeiro semestre de 2015 nas cidades do Ceará, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Este ano, também marcou cortes de verbas de diversos programas federais em inúmeras áreas, culminando na descontinuidade de editais como o Prêmio Mulheres nas Artes Visuais.
Em sua segunda edição, 80% dos projetos premiados eram das regiões Sul e Sudeste, 20% foram inscritos por proponentes da região Nordeste. Os projetos contemplados representaram menos de 1,7% dos mais de 600 projetos inscrito. Muitos representaram grupos ou coletivos, foram premiadas artistas individuais renomadas como Rosângela Rennó que propôs um projeto denominado livro de artista pautado no furto ocorrido no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, em 2006. O livro foi produzido com reproduções de fotos furtadas, posteriormente encontradas e devolvidas à Biblioteca Nacional. Segundo a artista:
“As imagens, que retornaram em péssimo estado de conservação e sem o número de identificação da biblioteca, levaram a artista a outra criação poética: ressaltando a destruição ao reproduzir o verso das fotos, com suas margens rasgadas e outros estragos provocados no furto, realizados com o fim de apagar os registros de patrimônio da Biblioteca Nacional.”
As rasuras e marcas vestigiais nas fotos furtadas resultaram numa série de trabalhos que produziram questionamentos sobre o valor de troca e de uso, da propriedade pública e privada, do patrimônio, da permanência e destruição, da memória e do esquecimento. Fomos (re) lembrados deste furto de grande escala, bem como dos recorrentes saques de obras, álbuns fotográficos, estudos, gravuras, postais, revistas, fotografias antigas, desenhos e mesmo da insegurança e fragilidade dos acervos conservados na Biblioteca Nacional, como da sobrevivência dos artefatos, vestígios e histórias que processam informações valiosas a sociedade.
Neste viés remete, também a fragilidade daquilo que o público pensa sobre este ambiente e a crise do comum e das coletividades. Não se trata de obra especular ou monumental, mas da leitura crítica, proveniente da observação dos trânsitos e do mercado ilegal de imagens e documentos na sociedade contemporânea. As obras resultantes da pesquisa são livros, objetos móveis e múltiplos que ampliam a instância da visibilidade e circulação das imagens em disputa sem se reivindicar o lugar da aura dos objetos “Belas Artes”.
Para adentrar na discussão sobre os trabalhos realizados por mulheres e preparar o terreno para a reflexão sobre os processos desenvolvidos e contribuições dos trabalhos para nossa discussão nos debruçaremos sobre dois trabalhos: Ervas SP da artista visual Laura Lydia, um mapeamento da vegetação incidental no Elevado Costa e Silva em São Paulo e Natureza Morta RJ do grupo thislandyourland, composto por Ines Linke e Louise Ganz, que considera um tipo de arquivo da flora urbana da cidade do Rio de Janeiro.
Ervas SP propôs o mapeamento multidisciplinar da flora espontânea que brota no Elevado (Fig. 1), do “Minhocão”, como a intervenções ao lado de uma representante de cada espécie com desenho da própria planta e seu nome científico sobre um fundo branco. As intervenções criaram um registro, inspirado nas ilustrações botânicas e exsicatas (Fig. 2) que atesta a presença de ervas daninhas e outras espécies agrupadas. O processo e o desenvolvimento do projeto foram registrados em blog. Segundo a artista,
“O projeto, idealizado em 2010, com algumas primeiras intervenções no Minhocão, aconteceu em pequena escala, em 2012 na calçada da galeria Gravura Brasileira, e em 2015, graças ao Prêmio Funarte Mulheres nas Artes, em toda a extensão do Elevado Costa e Silva, levando 4 meses para sua realização completa – contando com a participação de uma equipe de profissionais e a publicação de um pequeno catálogo contendo todos os desenhos e imagens do processo.”
Concomitante ocorreu uma oficina de desenho, uma exposição com apresentação das intervenções ao longo do trajeto e a projeção de vídeo no Elevado Costa e Silva. O catálogo/arquivo sobre as ervas encontradas foi distribuído gratuitamente.
O projeto expos sua diversidade e capacidade de brotar e prevalecer no elevado entre o asfalto e cimento. As plantas, apesar das adversidades, persistem brotando nas frestas e fissuras de prédios, asfaltos, marquises, etc., no centro de São Paulo. Como sobreviventes em este ambiente hostil, elas se tornam metáfora da vida e provocam questionamentos sobre a existência e resistência, a cidade e natureza, o direito à cidade e a vida, impermeabilidade e permeabilidade. Por meio das plantas mudamos de escala, de foco, de perspectiva e olhamos a cidade a partir do que insiste sobreviver e na diferença.
Na mesma época ocorreu o projeto Natureza Morta. O projeto, realizado de forma inicial em diferentes lugares em Minas e Bahia em 2011/2012, também criou um tipo de mapeamento da vegetação espontânea/rudimentar em vários locais e pontos: terrenos baldios, calçadas, beiras de estradas, margens da praia, morros, canais, muros e frestas. Excursões foram realizados ao longo de trajetos, guiados pela Avenida Brasil e Linha Amarela. Estabelecemos imersões nas paisagens urbanas. Seguimos a Avenida Brasil em direção às zonas norte e oeste, realizamos coletas em bairros como Ramos, Penha, Madureira, Irajá, Deodoro, Realengo, Acarí, dentre outros. As plantas colecionadas constituíram um tipo de arquivo capaz de expor a geografia da Cidade. As plantas foram levadas a floristas locais para produzir arranjos agregando valor estético ao conjunto de capins, matos e ervas. A obra final, exposta no Largo das Artes e posteriormente doada ao Museu de Arte do Rio (MAM), consta de uma série fotográfica de arranjos com títulos plotados na parede e um mapa que constrói a história visual da origem e localização dos exemplares colhidos, um vídeo dos arranjos e uma instalação sonora com a falas de um florista.
Capins, matos e ervas são considerados pragas, algo banal, ordinário e indesejável, trata-se, também de uma vegetação incidental que resiste e convive com a cidade que se impõe. Eles contrastam com a ideia de um arranjo floral tradicional, um símbolo de luxo, riqueza geralmente feito com plantas ornamentais cultivadas e comercializadas para estas finalidades, em acordo as tendências do mercado oriunda de festas e convenções de decoração, comemorações e eventos.
Em seu texto de apresentação da exposição, a pesquisadora/curadora Renata Marquez concebe uma pequena retrospectiva histórica dos gêneros pictóricos da natureza morta e da paisagem para, então delinear um campo hegemônico que é friccionado pelos processos cartográficos e pelas legendas/títulos de cada imagem. Ela comenta:
“Entre olhar a imagem e ler o título, passamos da natureza-morta à paisagem e vice-versa. Os dois gêneros pictóricos se desfazem como campos estanques e trocam de posição dinamicamente. À maneira dos conhecidos títulos descritivos do gênero da “natureza-morta” – “Cesta de Frutas” de Caravaggio; “Natureza-morta com pavões” de Rembrandt ou “Natureza-morta com pote de gengibre, açucareiro e laranjas” de Cézanne –, “Flores do Campo de Deodoro”, “Capins dos muros do Valongo”, “Vegetação ribeirinha no canal do Quitungo” ou “Brenha no pé da serra em Realengo” descrevem aquilo que foi fotografado mas, sobretudo, apresentam, justapostas, a chave geográfica e a pista metodológica da fabricação das imagens. Através do vai-e-vem entre os títulos e as fotografias podemos percorrer as rotas traçadas pelas duas artistas no processo de coleta das plantas usadas nos arranjos decorativos.”
Coloque-se em questão os cânones da história, os padrões de beleza por meio dos deslocamentos e sentidos agregados pelas coletas no território, o trabalho dos floristas e a atuação das artistas. Natureza morta cria fricções entre apresentação e representação, arte e decoração, entre gosto e valor. Comenta-se assim a resiliência e a sobrevivência vegetal na cidade, as plantas que nascem espontaneamente e por sua vez, talvez por sua natureza, são consideradas sem valor comercial ou status cultural e sua exuberância e variedade surpreendentes de forma geral passam são despercebidas. De acordo com Marquez:
“Toda a sorte de ventos, cheiros, velocidade de andanças, conversas com passantes e floristas encontra-se condensada nas imagens. Toda a cartografia experimentada na cidade do Rio de Janeiro, que o corpo assim cuidou de esquadrinhar, e todo o olhar estético que a noção cultural de paisagem ajudou a construir mentalmente, conferem camadas de complexidade atual ao gênero da “natureza-morta”. Agora, finalmente, destituído de neutralidade e inseparável de seu sistema político-ambiental.”
Os títulos questionam o status da obra de arte, remetendo a outros tempos, às terras indígenas, às paisagens naturais com a presença de rios e florestas. Aparecem sobreviventes da devastação que documentam as transformações da paisagem. Desta forma os mapeamentos das plantas/espécies na área urbana, representam ao mesmo tempo, um arquivo de resistência histórica e um tipo de um manual de convívio. Os arranjos valorizam cada território, cada espaço ordinário, o endógeno e os movimentos que vento produz ao brincar/assanhar os capins e folhas se entrelaça com as vidas do passado e do presente destes espaços em constante disputa.
Podemos, a partir dos trabalhos selecionados (ciente das limitações do edital tendo em vista o pequeno número e a representatividade seletiva, a geopolítica incipiente e a falta de interseccionalidade na abordagem sobre o gênero/sexo) e trazidos neste texto, refletir, sobre a produção das mulheres nas artes visuais. Propostas como a performance urbana “Entre Saltos” do Coletivo Pi, ocorrido na primeira edição por diferentes cidades brasileiras, encenou eventos com um grupo de mulheres mancando por uso de um salto alto calçando apenas um dos pés ou mesmo o projeto de Lilian Maus, que realizou a curadoria de uma exposição e criou fricções sobre como aspectos do ‘universo feminino’ com aproximações entre afetividades e obscenidade e jogos com Erros no ambiente doméstico que transfigura os panos de prato, o baralho de cartas, os livros de história da arte.
Entretanto, os trabalhos Ervas SP e Natureza Morta RJ, ambos sem colocar a feminilidade em pauta de forma explícita, fomentaram diversas práticas que intervinham nos regimes da visibilidade, convidando a uma reflexão crítica sobre os temas abordados, delineando, deste modo aspectos políticos, éticos e sociais de época, ao desestabilizar o cânone e reivindicar uma outra forma de arte.
Trata-se de práticas coletivas, processuais, multifacetadas que estabelecem um diálogo com vozes que se posicionam de forma crítica ao modelo hegemônico centrado na figura do artista, na obra das Belas Artes. Os trabalhos, concebidos no contexto de grupos e coletivos, estabelecem uma rede de colaborações que dilui a ideia de autoria e autoridade das artistas, assim, os trabalhos são criados por uma série de ações e etapas que constituem um processo que se tornou inseparável do resultado. Os trabalhos interagem com o cotidiano, com o banal, com o verso, com o invisível, com as ervas daninhas e capins ordinários, com aspectos da vida em comum, com a terra, com a natureza, com a vida. As situações, onde as obras se inscrevem são preexistentes; elas formam o território dos trabalhos, um contexto onde as artistas desenvolvem suas ações e preposições. Os trabalhos são fundamentados em atividades simples, externas à arte, a experiência e vivência das artistas nos espaços e materiais encontrados nos lugares, mas, também, de uma quantidade substancial de tempo de pesquisa. Eles chamam a atenção para os danos e contragolpes, ao mesmo tempo que oferecem alternativas e possibilidades através de um olhar direcionado para as perdas, as lacunas, os silêncios e coisas pequenas, eles "tornam o invisível, visível".
As artistas performam micro intervenções, realizam pequenos gestos, ações desvalorizadas olhando para o infraordinário. Os pequenos gestos não se enquadram no paradigma da obra prima ou do progresso, na dicotomia entre arte e ciência ou natureza e cidade; as propostas reivindicam uma arte mais inclusivo, ou trabalham contra o cânone com ações antiespetaculares e menores, posicionando-se a favor de um conhecimento multidisciplinar e da vida coletiva. Buscam-se outras estratégias de produção e difusão que expandem o sentido do trabalho criando alternativas de exposição e consumo da arte; criando fluxos a partir das ativações e colaborações ao longo do processo.
Agora, a arte é destituída de seu suposto desinteresse, sua neutralidade e sua independência do sistema sócio/ambiental, de sua posição hierarquia frente a distintas ações proativas da cultura visual. Os trabalhos se posicionam em prol da extinção do dualismo que produzem oposições e ideias preconcebidas sobre arte e decoração/documento, homens e mulheres, cidade e natureza, corpo sensível e mente racional, arquivos e permanência. Contra o cânone das Belas Artes, o patriarcalismo, a destruição e a extinção do ambiente natural, da terra, da história, as artistas valorizam as formas de conhecimentos menores que se posicionam contra os mestre e gênios da grande arte, das grandes conquistas e das formas de domínio do ser humano sobre as outras formas de vida. Somos toda parte de um coletivo multiespécies; estamos interligados, produzindo relações e fricções, sem a pretensão de superlativos.
Neste sentido reconhecemos que o Prêmio possibilitou uma ampliação do escopo das investigações artísticas fora da lógica do mercado e do sistema de artes e participou, de um tempo que encerrou uma época com políticas culturais que mobilizaram o campo e ampliaram o escopo das artes visuais de forma singular. A partir de 2015 a crise econômica resultou em cortes de diversos programas e projetos, afetando, entre outras áreas, a educação e a cultura, áreas posteriormente negligenciadas e atacadas durante os governos de Michel Temer e Bolsonaro.
Hoje, um edital direcionado ao protagonismo das mulheres no contexto das políticas culturais atuais provavelmente não faria sentido. Observando a ´Retomada’ das políticas culturais da FUNARTE de 2023, percebemos a incorporação das discussões sobre igualdade e democratização da cultura na redação do edital geral, dando atenção a identificadores de gênero e raça cor/etnia dos proponentes inscritos, aparentemente uma preocupação também com uma proporcionalidade dos projetos selecionados a partir dos marcadores de diferença. O Edital FUNARTE Retomada 2023 - Artes Visuais, aplicou os critérios de gênero e raça, cor e etnia, entretanto contemplou somente uma pequena porcentagem (0.8%) dos projetos inscritos. 50% dos projetos contemplados mantiveram-se nas regiões sul/sudeste.
A visibilidade e valorização da produção de arte produzida por mulheres no Brasil andou lado a lado, movimentos direcionados na desconstrução de estereótipos relacionadas ao universo feminino. As produções de mulheres e de outras produtoras a ‘margem do sistema’ nos possibilita (re) pensar as posturas políticas e éticas, como as escolhas estéticas em constante transformações. No campo da arte, negocia-se a compreensão da multiplicidade, as diferenças e normas. Os trabalhos se situam num lugar de tensionamento, entre o fazer artístico e as práticas do campo social e política (e econômico). Neste sentido eles têm um compromisso permanente voltado a renovação do imaginário social e cultural acerca do campo da arte e do universo do gênero feminino, reivindicando um outro tipo de arte, uma arte menor que nos permite ver a fragilidade da vida e renegociar o comum.
Lista de Figuras
Figura 1. Ocupação Minhocão 2015. Fonte: https://mapeamentojardinagemterritorialidade.wordpress.com
Figura 2 Mapa das intervenções - Erva SP, 2015. Fonte: https://mapeamentojardinagemterritorialidade.wordpress.com
Figura 3. Coleta da vegetação espontânea em terreno baldio em Marambaia, 2015. Fonte: arquivo do grupo.
Figura 4. Natureza Morta: Matagal na beira da floresta da Tijuca, 2015. Fonte: arquivo do grupo.
Referências Bibliográficas
ARDURA, Rocío de la Villa. “Durante el feminismo de la igualdad: Historiografía, teoría y prácticas artísticas”. Exit Book: feminismo y arte de género. Madrid, n. 9, p. 24-29, 2008.
BOVENSCHEN, Silvia. Existe uma estética feminista? In: ECKER, Gisela (org.), Estética Feminista. Barcelona: Icara Editora, 1985.
Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (I) - 2006. Disponível em:
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pnpm_compacta.pdf
Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (II) - 2008. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/II_PNPM.pdf
POLLOCK, Griselda. Differencing the Canon: Feminism and the History of Art. London: Routledge, 1999.
RAGO, Margareth. Epistemologia feminista, gênero e história. Masculino, feminino, plural. Florianópolis: Mulheres, 1998.