Abstração Erótica na Arte de Eva Hesse

Isadora Grevan de Carvalho (Rutgers University-Newark) _

Introdução

Eva Hesse, escultora alemã radicada nos Estados Unidos, fez de sua arte um meio de explorar os limites do corpo feminino sob a sombra do exílio e da perda. Sua família, de origem judaica, fugiu da Alemanha nazista em 1939, e a mãe, também judia alemã, suicidou-se quando Eva tinha dez anos (Irish). A perda precoce da pátria e da mãe deixou marcas profundas de trauma, que mais tarde alimentariam sua produção artística (Irish). Dessas experiências nasceu também uma relação conflituosa com os papéis tradicionais de gênero. Hesse canalizou as memórias dolorosas da perseguição e do luto materno para um estilo radicalmente inovador, que dissolve fronteiras rígidas e resiste a qualquer classificação dentro de um único movimento artístico. Em seu lugar, ela construiu um espaço próprio de “abstração erótica”: um modo de invocar experiências e desejos do corpo por vias abstratas e não convencionais, em diálogo com o pensamento feminista de sua época. Sua vertente singular de escultura pós-minimalista, que combina a frieza da distância formal com a presença do toque, e a natureza com a sensualidade, criou uma linguagem artística capaz de romper estruturas patriarcais pelo confronto direto com as fronteiras do corpo feminino.

Filha de Perséfone: Exílio, Trauma e o Vínculo Mãe–Filha

A história de vida de Hesse espelha, de modo surpreendente, o antigo mito de Deméter e Perséfone, narrativa arquetípica de mãe e filha que fala de separação, descida e retorno. No mito, a jovem Perséfone é raptada por Hades e levada ao mundo dos mortos. Tomada pelo luto, sua mãe, Deméter, interrompe a fertilidade da terra até que a filha lhe seja devolvida por uma parte de cada ano. Estudiosas feministas observam que se trata da “história clássica de descida, morte e renascimento, e de separação e reunião entre a Mãe e a Filha arquetípicas” (Austen), uma narrativa que “precede em muito a deificação patriarcal do pai e do filho” na cultura ocidental (Spretnak). O mito dramatiza o modo como um trauma externo, a intervenção de um estranho (no caso, um deus masculino), rompe a unidade entre mãe e filha. É significativo que a ruptura não venha da rebeldia da filha nem da rejeição da mãe, como em tantos conflitos familiares da literatura, mas de um destino violento (Rich 240). Essa dinâmica encontra eco na experiência de Hesse: ainda criança, ela foi separada da mãe por atrocidades históricas que fugiam por completo ao seu controle. O vínculo entre as duas enfrentou “obstáculos formidáveis” (Osińska 46), como o exílio, a doença e a morte, numa verdadeira descida a um mundo subterrâneo de trauma.

A obra de Hesse pode ser lida como resposta criativa a essa perda primordial: uma viagem metafórica ao mundo dos mortos e de volta, à maneira do retorno cíclico de Perséfone. O ciclo de vida, morte e renascimento que está no coração do mito reaparece no modo como a artista transforma trauma em arte. Os psicanalistas Nicolas Abraham e Maria Torok argumentaram que o trauma não elaborado em uma geração pode se converter em um “fantasma transgeracional”, um legado oculto que assombra a geração seguinte (Abraham e Torok 171). No caso de Hesse, é possível ver o “fantasma” do sofrimento materno moldando silenciosamente sua vida interior.

Desde a infância, Hesse carregava “demônios pessoais” que procurou enfrentar, entre eles o trauma da separação dos pais quando ainda era muito pequena e o choque do suicídio da mãe (Pollack). Em 1959, aos 24 anos, iniciou psicoterapia para lidar com esses medos (Pollack), justamente no momento em que começava a encontrar sua voz artística. Embora falasse pouco sobre a mãe, os estudos biográficos sugerem que essa ausência, somada aos deslocamentos do exílio, deixou uma marca profunda em sua psique. A historiadora da arte Lisa Tickner observa que muitas artistas se engajam em uma “trama mãe–filha” (mother–daughter plot): uma narrativa, quase sempre implícita, em que a artista negocia sua identidade em relação à linhagem materna (Tickner 84). Em Hesse, essa trama não aparece como narração literal, mas como motivo simbólico. O uso recorrente de cordas, cordões e amarrações em sua escultura evoca fios umbilicais, como se a artista buscasse, inconscientemente, atar-se a uma origem perdida ao mesmo tempo em que construía um eu independente. Um de seus primeiros relevos escultóricos, Ingeminate (1965), reúne duas formas bulbosas unidas por um cordão curto. Os críticos as descreveram como um par de “formas fálicas gêmeas, enfaixadas”, ligadas por uma “corda de aparência umbilical” (Lippard 94). A imagem de dois corpos unidos por um cordão sugere, com força, uma mãe e uma criança ligadas através de uma separação. O próprio título, Ingeminate, significa “repetir ou geminar”, e invoca a duplicação, talvez o eco geracional da mãe na filha. Assim, embora abstrata e jamais narrativa, a obra de Hesse media simbolicamente o trauma geracional em sua própria linguagem material, estendendo uma linha tênue entre passado e presente, ausência e presença.