Mulheres da Fotografia Contemporânea e a experiência do Mulheres em Residência

Milena Costa de Souza (UNESPAR/EMBAP) _

RESUMO: Este artigo analisa o projeto Mulheres em Residência, uma residência artística on-line realizada em 2021, durante a pandemia de Covid-19. O objetivo é propor uma reflexão a respeito da fotografia brasileira produzida por mulheres, em especial a contemporânea, e discutir as estruturas sociais que invisibilizam as produções de fotógrafas. No artigo, questiono se Mulheres em Residência pode ser compreendido como um projeto transformador, e compartilho as estratégias elaboradas internamente para que as produções das mulheres envolvidas pudessem reverberar e criar um arquivo da fotografia contemporânea. Todo o processo de criação e realização do projeto é compartilhado a partir da análise da construção coletiva dele.

PALAVRAS-CHAVE: Mulheres em Residência; residência artística; fotografia brasileira; mulheres; fotografia contemporânea.

ABSTRACT: This article analyzes the project Mulheres em Residência, an online artistic residency held in 2021, during the Covid-19 pandemic. The objective is to propose a reflection on Brazilian photography produced by women, especially contemporary photography, and discuss the social structures that make the productions of female photographers invisible. In the article, I question whether Mulheres em Residência can be understood as a transformative project, and I share the strategies developed internally so that the productions of the women involved could reverberate and create an archive of contemporary photography. The entire process of creating and carrying out the project is shared based on the analysis of its collective construction.

KEYWORDS: Artistic residency; Brazilian photography; women; contemporary photography

Muitas vezes, quando penso em Mulheres em Residência acabo trocando por Mulheres em Resistência, num ato nem tão falho” _Mille Jung, 2021

NTRODUÇÃO

Desde os anos 1970, pesquisadoras informadas pelas práticas feministas vêm trazendo para o debate público questões sobre o porquê de algumas artistas e suas investigações poéticas serem “esquecidas” e excluídas da história da arte. Naquela mesma década, Linda Nochlin, historiadora da arte, escreveu o importante texto: Por que não houve grandes mulheres artistas? Esse artigo abriu as portas para pensarmos coletivamente sobre as dificuldades estruturais enfrentadas pelas mulheres nas artes visuais, e de que maneira as relações de poder e de gênero podem reproduzir a exclusão dessas sujeitas.

Nos últimos tempos, interessa-me enquanto pesquisadora pensar como o circuito da fotografia brasileira vem se posicionando em relação a esses debates e, enquanto gestora cultural, tenho procurado criar estratégias de transformação para que mais mulheres possam estar onde desejam; que suas vozes criativas sejam ouvidas e imagens vistas. Isso implica a construção de novos lugares de debates e produção, tendo em vista que o fazer, frequentemente, transborda os espaços institucionalizados, como festivais de fotografia e museus.

Segundo os autores Soares, Feitosa e Junior (2018, p.4), quando pensamos a presença das mulheres na história da fotografia brasileira, algumas situações problemáticas se destacam. A primeira é a publicação de Boris Kossoy, reconhecido pesquisador da fotografia no país, intitulada Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). No capítulo Dicionário de A-Z, Kossoy elenca nomes de diversos fotógrafos do período e suas realizações, mas apenas quatro mulheres da fotografia estão nessa seleção. São elas: Hermina de Carvalho Menna da Costa, Maria Brasilina de Magalhães, Maria Izabel da Rocha e Fanny Volk. Além de colocar poucas mulheres nessa lista, Kossoy, por vezes, não deixa claro se elas trabalhavam como comerciantes ou fotógrafas em seus estúdios, e associa suas escolhas profissionais ao legado de homens de suas famílias. Ainda que fosse comum estúdios fotográficos serem administrados por famílias, essa perspectiva pode sobrepor-se à autonomia dessas profissionais, colocando suas ações como derivadas da ausência dos homens (Soares; Feitosa; Junior, 2018, p. 4).

Refletindo sobre como as mulheres foram representadas na história da arte, Ana Paula Simioni em Profissão artista: pintoras e escultoras acadêmicas brasileiras (2008), e Amélia Sigel Corrêa em As mulheres na história da fotografia brasileira: alguns apontamentos (2014) destacaram como, em diversos momentos da história, as mulheres foram relegadas à posição de amadoras. O lugar do amadorismo não apenas reforçava uma suposta inferioridade das mulheres no meio artístico, como também as excluía dos processos de profissionalização e construção de autonomia.

Soares, Feitosa e Junior (2018, p.5) também chamam nossa atenção para dois outros momentos de invisibilização da produção de fotógrafas. O primeiro, uma publicação de 1996 de Boris Kossoy e Ronaldo Entler para a revista Photo, em que eles traçavam uma espécie de panorama da fotografia brasileira de então. Na ocasião, apenas 13,5% das pessoas destacadas eram mulheres. Outro momento é a publicação da Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil, de 2011, sendo que apenas 27 dos 228 membros eram mulheres (Soares; Feitosa; Junior, 2018, p.5).

Em um cenário de sistemática invisibilização da produção de fotógrafas, coletivos brasileiros ganharam força na fotografia contemporânea nas primeiras décadas do século XXI. Alguns exemplos são:  Nítida, YVY Mulheres da Imagem e Mamana. Todos atuaram ou atuam (1) na difusão dos trabalhos de mulheres da fotografia; trabalham com pesquisas sobre e de mulheres, além de estarem presentes nas redes sociais. Esses coletivos, bem como a manifestação pública e individual de mulheres da fotografia, vêm contribuindo, nos últimos anos, para o questionamento de estruturas desiguais perpetuadas frequentemente pelos festivais de fotografia, locais de trabalho e espaços expositivos.

Por isso, neste texto, navego pela construção e pelo desenvolvimento do projeto Mulheres em Residência, uma residência artística para mulheres, realizada em 2021, que uniu artistas de diferentes regiões do Brasil para pensar coletivamente suas produções. Vejo esse projeto como uma estratégia de ampliação dos circuitos da fotografia brasileira, um exercício de reflexão e de fazer circular a produção das mulheres que trabalham com a fotografia enquanto suporte.

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(1) É importante notar que nem sempre os coletivos atuam de forma linear ou a partir de uma periodicidade dada. Durante a escrita deste texto, por exemplo, YVY Mulheres da Imagem estava em pausa nas redes sociais desde 2020.

(Cont.)