A Montanha da Artista: Mulheres Artistas Migrantes no Campo Artístico Europeu
Neyde Lantyer (UPorto) _
Resumo: Este artigo investiga os obstáculos enfrentados por mulheres artistas deslocadas do Sul Global para a Europa, a partir da interseção entre migração, gênero e arte. O estudo analisa o entrelaçamento entre desenraizamento e experiências de fracasso artístico no contexto das desigualdades globais e de estruturas persistentes de exclusão. Para isso, mobiliza a metáfora da montanha como dispositivo crítico-metodológico derivado do projeto artístico que acompanha a pesquisa. Ancorada no feminismo interseccional e na crítica à colonialidade, a análise evidencia como marcadores de gênero, raça, etnia, procedência geopolítica e outros eixos de diferenciação continuam a regular o acesso, a circulação, a visibilidade e o reconhecimento no sistema da arte. Ao tensionar discursos hegemônicos sobre a globalidade cultural, o artigo problematiza os limites das narrativas institucionais de inclusão, diversidade e universalidade que estruturam o campo artístico.
Palavras-chave: Migração artística; Exclusão; Colonialidade; Feminismo interseccional; Mulher artista migrante.
Abstract: This article investigates the obstacles faced by women artists relocating from the Global South to Europe through the intersection of migration, gender, and art. It examines the relationship between uprootedness and experiences of artistic failure within the context of global inequalities and persistent structures of exclusion. To do so, it mobilizes the metaphor of the mountain as a critical and methodological device derived from the artistic project accompanying the research. Grounded in intersectional feminism and decolonial critique, the analysis shows how gender, race, ethnicity, geopolitical location, and other axes of differentiation continue to shape access to, circulation within, visibility in, and recognition by the art system. By challenging hegemonic discourses of cultural globality, the article interrogates the limits of institutional narratives of inclusion, diversity, and universality that continue to structure the contemporary art world.
Keywords: Artistic migration; Exclusion ; Coloniality; Intersectional feminism; Migrant woman artist.
1. INTRODUÇÃO
Há política porque o logos nunca é apenas fala, mas a demonstração de uma disputa sobre a distribuição do sensível. (RANCIÈRE, 1995)
A condição de artista na sociedade é atravessada por incertezas e precariedades que se aprofundam com a migração. Pierre Bourdieu (1992) descreve o campo artístico como um espaço de disputas por capital simbólico, no qual a posição dos agentes depende tanto dos recursos reunidos ao longo de suas trajetórias quanto das estruturas de poder que organizam o campo. Ao deixar para trás seu país de origem, a artista migrante afasta-se de suas redes de pertencimento e vê o capital simbólico acumulado em seu contexto de origem perder sua capacidade de produzir reconhecimento no novo espaço de legitimação. As credenciais e distinções anteriormente construídas deixam, assim, de produzir os mesmos efeitos, podendo, no contexto da metrópole, converter-se em marcas de desqualificação ou estigma. Para artistas deslocadas de regiões situadas às margens dos centros hegemônicos globais, essa perda de eficácia simbólica evidencia que o prestígio não possui valor equivalente nos diferentes espaços de legitimação artística, ou seja, o reconhecimento é espacial e geopoliticamente diferenciado. Longe de constituir um espaço neutro, a circulação internacional da arte reproduz assimetrias históricas que frequentemente esvaziam ou domesticam o potencial crítico das práticas oriundas de contextos periféricos (BISHOP, 2012), relegando artistas migrantes à precariedade estrutural e a incessantes negociações simbólicas.
Nesse cenário, mais que um deslocamento geográfico, a migração implica a ruptura das redes de reconhecimento e interdependência que sustentam a prática artística, intensificando aquilo que Judith Butler (2004) denomina “vidas precárias”. Se a vulnerabilidade constitui uma condição relacional compartilhada por todos os sujeitos, sua distribuição é profundamente desigual, agravando-se para mulheres artistas deslocadas, que precisam reconstruir seus meios de subsistência e, simultaneamente, disputar legitimidade em um campo historicamente marcado por assimetrias de gênero. Para elas, a prática artística, historicamente submetida a formas instáveis de trabalho e dependente de redes de reconhecimento, assume uma condição de precariedade agravada pelas estruturas patriarcais que condicionam suas possibilidades de atuação e enunciação. Tais estruturas articulam-se a outros eixos de diferenciação social, como raça, classe e origem geopolítica, produzindo formas persistentes de desigualdade e exclusão.
(Cont.)
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Este artigo parte, portanto, da hipótese de que o campo artístico eurocêntrico é estruturado pela articulação entre hierarquias coloniais e patriarcais que, incidindo de forma desigual sobre as trajetórias das mulheres artistas, produzem efeitos agravados sobre aquelas oriundas do Sul Global. Nessas condições, sua produção é recebida como “exótica” ou como “diferença consumível” (CANCLINI, 1997), produzindo invisibilidade e exotização que operam como contenção simbólica e reduzem a potência de suas vozes na produção e na enunciação do discurso artístico.É nesse campo de forças que o texto acompanha a trajetória hipotética de uma artista em deslocamento, desde a partida de seu país de origem até sua chegada à Europa, tomando-a como fio condutor para compreender como tais estruturas se inscrevem na experiência migratória. A escrita desenvolve e reelabora criticamente questões centrais da pesquisa teórico-artística apresentada na dissertação A Montanha como Metáfora: Exclusão, Anonimato e Invisibilidade da Mulher Artista Migrante (LANTYER, UPorto, 2021). Organizado em duas partes, o artigo examina as dinâmicas de exclusão que atravessam os percursos de artistas periféricas nos centros hegemônicos da arte, situando essas experiências no horizonte das desigualdades globais produzidas pela colonialidade do poder. A primeira parte dedica-se às forças que motivam a partida; a segunda, às condições concretas que marcam a experiência da artista após o deslocamento.
Emergindo da articulação entre pesquisa teórica e prática artística, a figura da montanha surge como dispositivo crítico-poético, constituindo, simultaneamente, uma imagem conceitual capaz de condensar os obstáculos históricos, geopolíticos e simbólicos enfrentados por mulheres artistas em situação de migração. Aquilo que se diz montanha poderia ser igualmente enunciado como abismo, fenda, represa, muralha, despenhadeiro, fronteira, travessia ou limiar. Em entrevista recente, a artista brasileira Regina Vater, que viveu grande parte de sua vida como migrante nos Estados Unidos e cuja produção dialoga com questões propostas pelo feminismo, referiu-se ao início de sua carreira artística como uma experiência de constante colisão contra um “muro invisível”. A formulação de Vater aproxima-se da montanha aqui proposta ao nomear uma sensação de impedimento que, embora não formalizada, se faz sentir como barreira concreta e se articula a processos históricos que atravessam os percursos de mulheres artistas migrantes. O artigo concentra-se em sua dimensão teórica e analítica, examinando as estruturas que sustentam tais obstáculos. O deslocamento metodológico da crítica para a criação artística, desenvolvido em etapas posteriores da pesquisa, retoma a montanha como princípio de criação, deslocando-a de uma categoria de análise para uma prática de investigação por meio da arte.
(Continua)