Corpo, câmara escura, dispositivo uterino: protagonismos femininos na fotografia experimental brasileira.

Rosa Bunchaft (UFBA/USP) & Angélica Costa (UERG/FGV)

No final da década de 1970, Regina Alvarez volta da Inglaterra, após dois anos de estudos em arte-educação em que conheceu como possibilidade lúdica e experimental de pesquisa estética, processos fotográficos do sec. XIX e a “fotografia do buraco da agulha”, tornando-se, nos anos seguintes, pioneira da fotografia pinhole brasileira: quem primeiro a pesquisou, publicou, ensinou e difundiu pelo Brasil.

Seja pelo pensamento de vanguarda nas práticas fotográficas de laboratório, pelo questionamento reflexivo dos fundamentos da fotografia, pelo exercício desbravador na arte e  educação, a relevância de Regina Alvarez influenciando artistas e fotógrafos de gerações posteriores, nos permite partir deste marco para esboçar uma cartografia de protagonismos femininos na fotografia experimental brasileira de base química, incluindo, também, práticas de câmara escura que podem ser efêmeras, e não produzir necessariamente imagens como materialidade, portanto não requerer práticas de laboratório.

Como podemos pensar a fotografia experimental de base química brasileira sob uma perspectiva que destaque o protagonismo da criação feminina? Em que medida esta atravessa práticas visuais feministas?

Visando publicações futuras de uma pesquisa curatorial de artista, apresentamos aqui um ensaio visual com artistas brasileiras influenciadas pelo legado da artista-fotógrafa e arte-educadora Regina Alvarez, escolhendo, como primeira linha condutora, o corpo e suas vicissitudes.

A ideia de uterino aqui não se fundamenta numa associaçao binária e essencialista ao masculino e feminino a partir de  uma correspondência supostamente “certa” com o sexo biológico atribuído ao nascimento. Propomos a câmara escura como dispositivo uterino pela experiência primeira de imersão que a todos nos é comum, ao sermos gestados, em oposição às metáforas fálicas de arma, posse, morte, captura, usadas ao longo de toda a história da fotografia, apontadas por Susan Sontag. A câmara escura é imersão na luz, num tempo expandido, no processo, na imagem líquida, numa experiência dilatada, numa relação uterina, primordial e  viva com o outro, com o entorno e consigo.

Trazendo obras de artistas como Regina Alvarez, Paula Trope, Neide Jallageas e Tatiana Altberg, este ensaio visual traz à tona a força da produção de 3 gerações de mulheres atuantes como artistas e educadoras no campo da fotografia experimental e a relação da sua prática com o corpo feminino. Se o corpo, para Foucault, é a “topia desapiedada”, o lugar “absoluto” e “desapiedado”, que confronta as utopias, nos parece que na nossa primeira constelação de obras, utopias e corpos se atravessam.  Algumas dessas artistas, de fato, são mais conhecidas por práticas visuais que envolvem o encontro com outros corpos, a alteridade, a fotoeducação, a relação com o  entorno, a produção de narrativas e memória coletiva sobre a cidade, mas aqui se voltam para o próprio corpo desestabilizando a representação usualmente objetificada do nu feminino na história da arte, para trazer ao invés disso, o esplendor da maternidade, a vulnerabilidade, a angústia, estranhamentos, incertezas, sentimentos conflituosos diante do espaço doméstico, transformações, doenças, a relação poética das  práticas artísticas com o corpo feminino ao longo de diferentes fases e desafios da vida. (Cont.)