Exposição “Mulher-Dama”: arte, cidade e prostituição na zona de contato
Silvana Olivieri (UFBA) (1) _
Prostituição, bebida, drogas e crime, quer coisa mais viva? Lina Bo Bardi (2)
O presente artigo traz o relato e a análise da minha experiência em relação ao mundo da prostituição feminina no processo de curadoria e realização da exposição “Mulher-Dama”, que ficou em cartaz por dois meses, entre janeiro e março de 2018, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira - MUNCAB, localizado no Centro Histórico de Salvador, projeto financiado pelo Fundo de Cultura do Estado da Bahia, através do Edital Setorial de Artes Visuais 2016 da Fundação Cultural do Estado da Bahia – FUNCEB, com produção executiva da Giro Planejamento Cultural (3).
Numa parceria com a Associação de Prostitutas da Bahia, a APROSBA, além de um ensaio fotográfico inédito de Flávio Damm, mostrando o cotidiano do alto e baixo meretrício de Salvador em meados da década de 1960, a exposição contou também com oficinas artísticas com mulheres cis, trans e travestis que “batalham” no Centro Histórico, e uma mostra audiovisual acompanhada de bate-papos com lideranças locais e nacionais do movimento de prostitutas, ou “putativismo”. Pretendo mostrar como esse processo se constituiu no que Mary Louise Pratt (1991), considerada uma das pioneiras dos estudos decoloniais, definiu como uma “zona de contato”, um espaço onde culturas díspares se encontram, se chocam, se entrelaçam.
O contexto
Entre os anos de 2014 e 2015, houve uma série de investidas articuladas dos poderes públicos municipal e estadual e da Superintendência do IPHAN na Bahia a fim de expulsar a população que há mais de um século residia e/ou trabalhava nas antigas ladeiras da Conceição e da Montanha, ligando a Cidade Alta à Cidade Baixa, no Centro Histórico de Salvador, basicamente ferreiros, serralheiros e marmoristas, os artífices, além de cafetinas e prostitutas. Não por coincidência, nesse mesmo período era anunciado um projeto de “revitalização” da rua Chile e seu entorno, na vizinhança dessa área, concebido por um grupo de empresários do setor hoteleiro e imobiliário com inspiração no Meatpacking District de Nova York, voltado para um público de alta renda (4).
Em maio de 2015, a prefeitura se aproveitou de uma tragédia – o desabamento de um muro de arrimo durante uma forte chuva, causando a morte de uma moradora - para demolir, num intervalo de apenas três dias, mais de trinta imóveis nas duas ladeiras, incluindo alguns casarões centenários, despejando seus ocupantes. “Em 40 anos não se fez nada, mas em 72 horas os tratores foram reunidos para destruição daquela área. É como se a degradação do patrimônio fosse planejada”, observou Luiz Antônio de Souza, arquiteto urbanista e professor da UFBA (5). A destruição só não foi maior porque o episódio teve grande repercussão nas redes sociais e na imprensa, sobretudo por se tratar de uma “área de preservação rigorosa” pelo IPHAN, tombada como patrimônio da humanidade pela UNESCO desde 1984 (6).
Desde o início, os artífices mobilizaram uma vasta rede de apoio, acabando por conseguir permanecer com suas oficinas nos arcos da ladeira da Conceição. Integrando esse movimento, muito inspirado pelo Ocupe Estelita que acontecia em Recife, notei que quase ninguém ali se preocupava com a situação das prostitutas, cujos locais de trabalho e moradias foram demolidos sem qualquer assistência nem indenização. Foi quando pude constatar que, em pleno século XXI, esse continuava sendo um dos grupos mais desprezados e estigmatizados em nossa sociedade, cuja existência não importava até para gente bastante engajada nas lutas de classe, raça e mesmo gênero.
Essa situação mexeu comigo. No começo dos anos 2000 morei no bairro Dois de Julho, convivendo diariamente com prostitutas, tanto mulheres cis como travestis, minhas vizinhas. Foi também nessa época que conheci o Manilla’s bar na ladeira da Conceição, o último “castelo” de Salvador, que Jorge Amado frequentava. Marinalva, a dona, dizia que “contava meus segredos para ele, e ele me colocou em um de seus livros”. Segundo o sociólogo Gey Espinheira (1984), castelo era um tipo particular de bordel, organizado como uma comunidade de mulheres, criando laços de amizade profundos e fortes. Uma comunidade unida, liderada pela “casteleira”, uma espécie de matriarca que as jovens costumavam chamar de “mãezinha”, pessoa de grande experiência e que conhecia todas as faces da profissão.
(Cont.)
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“Os castelos eram lugares que não se destinavam apenas ao sexo, tinham papel fundamental na vida social e cultural da cidade, onde se discutia política, filosofia, arte, frequentados por todo tipo de gente”, lembrava Espinheira (in Palacios, 2009) - velhos e moços, ricos, pobres e remediados, marinheiros, coronéis, banqueiros, magistrados, estudantes, poetas, artistas, intelectuais, malandros e até religiosos. Eram “locais de encontro, de troca e de confronto com o outro”. Mas o protagonismo era das mulheres, inclusive eram elas que geralmente comandavam o “negócio”. Os castelos não resistiram à concorrência dos motéis e às mudanças nos hábitos e práticas sexuais da população, desaparecendo gradativamente da paisagem da cidade a partir dos anos 1970. O Manilla’s bar só fecharia em 2016, quando, por problemas de saúde, Marinalva deixou Salvador e foi morar no interior da Bahia, vindo a falecer em 2019.
Hoje saberia explicar o motivo dos lugares de prostituição me afetarem e me atraírem tanto. Como também percebeu Lina, há neles muita animação e vitalidade – antigamente, eram chamados de ruas, bairros ou pensões “alegres”. Apesar de todo estigma, de serem associada a sofrimento, violência, exploração, miséria, a “zona” também está associada a alegria, principalmente na visão de clientes, frequentadores e das próprias prostitutas. No Fórum Social Mundial de 2005, Ivanilda Santos de Lima, dirigente da Associação Fio da Alma, do Rio de Janeiro, declarou: “Nos rotulam de tudo. E sabem por que? Porque somos mulheres alegres (...). E onde há alegria, há movimento. E onde há movimento, as pessoas chegam para ganhar dinheiro”. Comecei então a dar visibilidade à questão nas redes sociais, lançando uma provocação: “E os bordéis, nossos tradicionais castelos, pq quase ninguém fala deles? Quem, entre nós, vai ajudar a defendê-los?”
Prostituição e cidade
Como mostra a historiadora Margareth Rago (2016), a prostituição só se torna um problema no contexto urbano e industrializado do século XIX (no Brasil apenas no fim do século, depois da República e da abolição da escravatura), quando o modo de vida passou a ser o “utilitário, muito mais ligado ao trabalho, muito mais produtivo”. Ao mesmo tempo em que as mulheres são estimuladas a gerar renda (empregadas ou prestando serviço) ou a serem consumidoras, convocadas a participarem mais ativamente da vida social, a ideologia da domesticidade feminina lhes é imposta ainda mais fortemente. O estigma surge então como um mecanismo de controle exercido sobre as mulheres. Basicamente, para manter “todas as mulheres na linha”, explica a putativista e escritora Monique Prada (2018), marcando e punindo aquelas que não aceitam os lugares que lhe são destinados - a casa, o lar - para ocupar as ruas e os espaços públicos, até então domínio exclusivo dos homens, onde exibiam sem pudor seu comportamento provocativo, perturbador, sua sexualidade livre:
Mulheres de má vida, meretrizes insubmissas, impuras, insignificantes, o que fazer com essas loucas que recusam o aconchego do casamento, que negam a importância do lar e preferem circular enfeitadas pelas ruas, desnudando partes íntimas do corpo, exalando perfumes fortes e extravagantes, provocando tumultos e escândalos, subversivas que rejeitam o mundo edificante do trabalho, surdas aos discursos masculinos moralizadores e que perseguem a todo custo a satisfação do prazer? (Rago, 1985, p. 85)
Veio de um médico francês, Alexandre Parent-Duchatelet, autor do livro “La prostitution dans la ville de Paris” (publicado em 1836, após sua morte), a solução para a presença das mulheres “de vida airada”, “degeneradas”, “delinquentes” nas cidades: “se removem, ao que parece, os locais de devassidão dos quais elas faziam parte; as expulsam da sociedade, as confinam em um lugar e as deixam fazer tudo que desejam em sua nova acomodação” (HELENE, 2015). O confinamento numa “zona” específica da cidade não servia apenas para separar e esconder as putas das famílias e pessoas “de bem”, da “boa sociedade”, das mulheres “normais” e “honestas”, como também para facilitar o controle e a repressão do aparelho policial sobre o “comércio do prazer”.
A grande reforma de Paris do Barão Haussmann, realizada entre 1853 e 1870, seguiu à risca as orientações de Parent-Duchatelet e, desde então, tornou-se quase uma regra retirar as prostitutas de ruas e bairros através de renovações urbanas, também chamadas de requalificações ou revitalizações, depositando-as em áreas mais desvalorizadas, abandonadas pelo poder público, até que que uma nova intervenção venha valorizá-las, promovendo uma nova expulsão. A antropóloga Soraya Simões atribui o surgimento do movimento de prostitutas no Brasil, nos anos 1980, liderado por Gabriela Leite e Lourdes Barreto, à luta por direitos civis e também pelo direito à cidade, visando “conter a violência policial, denunciar a discriminação, como também legitimar o direito à cidade face aos processos de grilagem e de renovação urbana” (SIMÕES, 2010).
Um dos marcos dessa luta é o ato público organizado em 1987 pela recém-criada Rede Brasileira de Prostitutas no Rio de Janeiro, contra a remoção da Vila Mimosa, no antigo Mangue. O evento, chamado “O Mangue Resiste”, contou com o apoio de ONGs, artistas e pessoas ligadas às pastorais da Igreja Católica no repúdio “contra a violência, a especulação imobiliária e a discriminação social” não apenas contra as prostitutas, mas também “outras comunidades carentes que lutam pela preservação do seu espaço e a garantia dos seus direitos”. Não podendo comparecer ao ato, o escritor Jorge Amado enviou, da Bahia, uma carta de apoio ao movimento de prostitutas:
Meu desejo seria estar presente, em pessoa, no ato público do 10 de dezembro, no circo Voador, para assegurar minha total solidariedade à Rede Nacional de Prostitutas engajada em luta dura e difícil para denunciar as violências de que estão sendo vitimas os habitantes da região do Mangue, em especial as prostitutas, às quais são negados quaisquer direitos, os mais mínimos, vítimas de “grilagem urbana, especulação imobiliária, corrupção e irregularidades administrativas e discriminações sociais”. O que esta acontecendo é algo monstruoso e deve despertar a indignação de cada um de nós, de todos os que desejamos o fim do arbítrio e da discriminação. Juntamos nossas vozes e nossos esforços aos dos habitantes do Mangue que pleiteiam seja a região transformada em área de preservação ambiental. Busquemos impedir que mais um crime seja cometido contra a população do Rio e, em especial, contra o grupo social mais terrivelmente marginalizado e perseguido: as prostitutas.
Esse processo de expropriação urbana constantemente sofrido pelas prostitutas já havia sido denunciado pelo escritor em “Tereza Batista Cansada de Guerra”, lançado em 1972. Lideradas pela heroína, as “rameiras” desobedecem às ordens da polícia e resistem a uma tentativa de remoção da “zona” da Barroquinha, “ao lado da praça Castro Alves, nas vizinhanças da rua Chile, coração comercial da urbe”, para “um buraco desinfeliz, na Cidade Baixa, perto da Carne-Seca, a ladeira do Bacalhau, uma imundície. Ninguém morava mais lá, faz tempo. Andaram ajeitando, passando uma mão de cal. Fui espiar, dá vontade de chorar”. É o assunto dessa conversa entre Maria Petisco e Assunta, dona do bordel, resignadas à “mudança” forçada, com a valente Tereza Batista, a Tereza Boa de Briga:
— Não há uma maneira? De se queixar, de reclamar? — Reclamar a quem, criatura? Já viu mulher da vida ter direito a reclamação? Se a gente reclamar, vai é levar porrada. — É um abuso, é preciso fazer alguma coisa. — O que é que a gente pode fazer? — Não se mudar, não sair daqui. — Não se mudar? Você até parece que ignora como é a vida de mulher-dama. Puta não tem direito de reclamar, puta só tem direito de sofrer. — Calada, senão toma cadeia e lenha. — Será que você ainda não sabe? Ainda não aprendeu? (Amado, 1972, p. 367-368)
No caso das casas demolidas e das mulheres expulsas da ladeiras da Montanha e Conceição, também era preciso fazer alguma coisa. Sempre se pode fazer alguma coisa. Então lembrei do ensaio fotográfico de Flávio Damm sobre o cotidiano da prostituição em Salvador em meados dos anos 1960, que nunca havia sido mostrado pelo fotógrafo gaúcho radicado no Rio de Janeiro, um principais nomes do fotojornalismo brasileiro. Bem pouco conhecido, o ensaio fora idealizado por Jorge Amado, para um livro que os dois amigos iriam fazer juntos, intitulado “Mulher-Dama”, projeto interrompido pelo escritor por causa do AI-5. Assim surgiu a ideia da exposição: ser uma resposta a esse duplo apagamento, fazendo reaparecer o mundo que acabara de desaparecer. Uma reparação “simbólica” e afetiva, através da arte.
O ensaio fotográfico
No “castelo” de China, Ladeira da Montanha, 63, estava o mais famoso bordel de Salvador, talvez da Bahia inteira. Jorge me propôs fazermos um livro sobre o dia-a-dia das residentes. Teria o título de Mulher-Dama: fotografei com desenvoltura, respeitei suas intimidades e me reservei ao modo de viver das moças, a hora do penteado, da maquilagem, do encantamento com a melhor roupa para ir para o salão onde um cantor fazia as vezes de Carlos Gardel. Fiz centenas de fotografias, sem nenhuma censura: ensaio que está inédito de vez que, quando íamos publicar aconteceu no país um desastre ditatorial, o chamado AI-5: Jorge Amado tinha um passado político e isto fez recuar da ideia temendo um desfecho indesejado.
Flávio Damm
O livro “Mulher-Dama” seria a segunda parceria da dupla Jorge Amado e Flávio Damm, na sequência do trabalho para o livro “Bahia Boa Terra Bahia”. Incluindo ilustrações de Carybé, esse primeiro livro, publicado pela Agência Fotográfica Image, de Damm e seu cunhado José Medeiros, foi lançado em 1967 em Salvador, com grande destaque na imprensa local. Jorge então sugere que as fotografias do meretrício da velha cidade da Bahia feitas para esse trabalho fossem utilizadas em outro livro, a ser lançado posteriormente.
Foram mais de oitocentos negativos produzidos por Damm com sua Leica durante os meses de janeiro e fevereiro de 1966, zanzando pelas ruas do Centro Histórico na companhia de Carybé em busca de “instantes decisivos”, sobretudo no Maciel, o “baixo meretrício”. Era o Mangue baiano, onde se concentrava o maior contingente de prostitutas da cidade, razão do pesado estigma do bairro, atacado diariamente pela imprensa como um lugar degradado, impróprio, vergonhoso. Olhares menos moralistas e mais sensíveis viam ali justamente o contrário. Gey Espinheira (in Palacios, 2009) resumiu: “era uma grande festa”. O Maciel fotografado por Damm, no fim mais ainda no período mais glamoroso da prostituição, é bem diferente do bairro apreendido pelas lentes de Miguel Rio Branco apenas treze anos depois, totalmente arruinado, condenado a desaparecer do mapa de Salvador na reforma dos anos 1990, que expulsou seus últimos moradores e apagou a memória incômoda do lugar, considerado por décadas o mais “terrível” da cidade, transformando-o num “shopping a céu aberto” para consumo de turistas.
Damm registrou também o cotidiano das residentes no “Meia-Três” da ladeira da Montanha, conhecido como “castelo de China”, um “casarão centenário de costas para o mar imenso da Baía de Todos os Santos”, lembrava Damm (2006). Graças à intermediação de Jorge e Carybé, China autorizou Damm a fotografar dentro do bordel, ressalvando que ela não aparecesse, preocupada com a vizinhança de Itapagipe, bairro onde morava, “amancebada que era com um taxista de um Simca Chambord do ano”. Damm frequentou o Meia-Três por cerca de um mês, “tardes e noites, fiz amizades, respeitei e fui respeitado”, começando a fotografar só após ganhar a confiança das moças. “Nenhuma fotografia das intimidades profissionais”, mas “cenas de preparo para a boa aparência no salão à noite, penteados, esmalte nas mãos e nos pés, conversas ao telefone”, sem faltar o “esporádico fazendeiro de cacau dando uma fugida em Salvador e porque não, uma chegada no Meia-Três da Ladeira da Montanha”. São os únicos registros que existem do famoso castelo, fechado em meados da década de 1970. O casarão do Meia-Três foi um dos imóveis demolidos pela prefeitura em maio de 2015.
Com o livro já paginado, faltando apenas a parte escrita, o trabalho foi suspenso. Diante do clima de terror que o AI-5 instaura no país, e da ferrenha defesa da moralidade e dos “bons costumes” pelos militares, tornou-se bastante temerário falar da prostituição de maneira tão afirmativa, e Jorge resolveu não arriscar, preferindo “deixar aquilo para mais adiante, aí o tempo diluiu, passou, esse golpe que eles fizeram continuou por mais algum tempo”, contou Damm. Com o passar do tempo, o projeto acabou abandonado: “Eu fui para um lado, o Jorge para outro e não nos encontramos mais, não por nenhum motivo, mas o livro morreu ali”. Cinquenta anos depois, para surpresa do próprio fotógrafo, então à beira dos noventa anos, o trabalho finalmente seria concluído, não mais na forma de um livro, mas como uma exposição.
A exposição
O projeto original da exposição “Mulher-Dama”, ganhador do edital da FUNCEB, previa apenas a realização de uma mostra fotográfica, acompanhada da publicação de um livreto. Logo após o resultado do edital, no fim de 2016, encontrei Fátima Medeiros, fundadora e presidente da APROSBA, na praça da Sé, e marcamos de falar sobre o projeto. Após essa conversa, ficou claro para mim que a exposição deveria servir também para colaborar com a associação, após dez anos praticamente desativada. Meses depois, Fátima me convidou para ir com ela, como membro da APROSBA, ao 6º Encontro Nacional de Prostitutas, evento que seria realizado em São Luís em setembro de 2017, após um intervalo de sete anos.
Esses três dias que passei em São Luís, no meio de prostitutas de todas as regiões do país, trouxeram a mim a certeza que elas tinham que estar muito mais presentes na exposição. Como também explica Prada (2018), que conheci pessoalmente nessa viagem, o estigma contra as prostitutas tem sido uma das mais eficazes estratégias de dominação patriarcal, e para manter sua eficácia, precisa deslegitimar a palavra dessas mulheres que não se parecem com a “puta imaginada”, a imagem estereotipada da prostituta. Que a exposição então possibilitasse que nos aproximássemos e ouvissemos as putas que a sociedade não quer ouvir.
A exposição foi inaugurada em 9 de janeiro de 2018, mostrando 42 fotografias feitas por Damm nas ruas do meretrício, exibidas no formato 20 x 30 cm, e uma projeção em loop com 50 fotografias do Meia-Três, além de várias atividades com prostitutas sendo realizadas ao longo dos dois meses em que ficou em cartaz no MUNCAB. No primeiro mês, houve a Mostra Audiovisual intitulada “Todo Poder às Putas”, com 4 sessões de documentários com diferentes abordagens sobre o trabalho sexual. Na sessão de abertura, foi exibido o documentário francês “Prostituição”, de Jean-François Davy, realizado na década de 1970, no contexto das ocupações de igrejas em diversas cidades francesas por prostitutas em busca dos seus direitos, movimento conhecido como a “revolução das prostitutas”. As sessões eram acompanhadas de uma conversa com putativistas, incluindo Fátima Medeiros, Diana Soares, Monique Prada, Santuzza Alves Souza e a veterana Lourdes Barreto, fundadora da Rede Brasileira de Prostitutas com Gabriela Leite.
No 2º mês, foram realizadas duas oficinas, com mulheres cis, trans e travestis que “batalhavam” no entorno do museu. A primeira, “Livro de Vida”, ministrada pela artista Tininha Llanos, com um grupo de mulheres cis mais velhas, a maioria fazendo “ponto” na praça da Sé, contando suas histórias de vida. Na 2ª oficina, “Caderno de Campo 2”, ministrada pela artista Vânia Medeiros, mulheres cis, trans e travestis desenhavam suas rotinas de trabalho. Os desenhos produzidos na oficina acabariam integrando o 36º Panorama da Arte Brasileira, exposição realizada em 2019 no Museu de Arte Moderna de São Paulo, e foram adquiridos para compor o acervo do museu.
No encerramento da exposição, houve o desfile/cortejo performático “Salve Exy Motoboy”, com participantes das duas oficinas, saindo de um hotel na praça da Sé até o MUNCAB. A ação foi concebida pelo artista e estilista recifense Cássio Bomfim, com as performers vestindo a coleção Exu Motoboy, inspirada nas figuras da pomba-gira e dos exus da umbanda, o “povo da rua”, bastante associado às prostitutas, considerados seus protetores. Após a chegada do cortejo ao museu, foi exibido o resultado das duas oficinas, terminando em festa.
Zona de contato
O capítulo final de “Tereza Batista cansada de guerra” se desenvolve em torno da ameaça de fechamento da “zona” do Centro Histórico de Salvador pela polícia, a mando dos especuladores imobiliários. Numa noite agitada, Castro Alves abandona sua estátua para se juntar ao bando de Tereza Batista na passeata contra a remoção dos bordéis da Barroquinha para a distante e decrépita Ladeira do Bacalhau. Ao amanhecer, já de volta à eterna morada, o poeta está com um braço estendido para o mar e no outro segura um cartaz rasgado com figuras de mulheres, onde se lê em letras maiúsculas: TODO PODER ÀS PUTAS.
Reunindo novamente Jorge Amado e Flávio Damm, borrando ainda mais as fronteiras entre ficção e realidade, tive a ideia de colocar essa frase numa grande faixa pendurada na fachada do MUNCAB. A faixa foi pintada em São Paulo por Graziela Kusch, Ingrid Laís e Laura Viana, artivistas ligadas ao Movimento Passe Livre, que prontamente atenderam ao meu pedido, usando a mesma estética das faixas que marcaram as chamadas “jornadas de junho”. Além de homenagear o escritor, a faixa com a frase funcionaria como uma espécie de “legenda” para a exposição, explicitando seu propósito de valorização e empoderamento dessas mulheres, como vimos até hoje tão segregadas, discriminadas, desprezadas. A intenção foi reconhecida por Monique Prada: “TODO PODER AS PUTAS significa APENAS romper com toda a estrutura patriarcal e INVERTER a ordem imposta. (…) isso incomoda e não é pouco”. Prada já havia a importância da faixa em outra postagem na rede social Facebook:
Sobre a faixa no museu, presente do MPL paulistano para o movimento de prostitutas brasileiro: Todo Poder às Putas, revolucionário na medida em que você pega o grupo mais odiado, segregado e desprezado da sociedade e inverte a ordem historicamente estabelecida. Não tem a ver com minha liberdade de cobrar por sexo, nem é “sobre ser feliz sendo prostituta”. Não é felicidade, é poder. É mais profundo.
Certamente, um dos principais legados da exposição foi essa frase retirada de “Tereza Batista cansada de guerra” ter sido apropriada pelas prostitutas e se tornado, quase 50 anos depois, um lema para a luta contra o estigma e por seus direitos, incluindo o direito à cidade, como tanto desejava o escritor. Numa entrevista para a editora e jornalista francesa Alice Raillard (1990), Jorge revelou que a motivação para escrever o romance foi justamente dar “uma condição de luta, uma dignidade de luta às mulheres que são sempre consideradas o resíduo, o refugo”. Nas palavras da putativista mineira Santuzza Alves Souza:
Que as pessoas entendam que acabar com a prostituição não é acabar com os corpos disponíveis para objetificar, explorar e humilhar, porque isso já acontece dentro dos casamentos gratuitamente. E, sim, acabar com a prostituição é acabar com o sustento de milhares de famílias. Nós resistiremos e continuaremos vivas. E seguiremos lutando. Todo poder às putas!
A crítica literária estadunidense Mary Louise Pratt (1999) denominou de “zona de contato” um tipo de espaço social onde “culturas se encontram, se chocam, lutam umas com as outras”, muitas vezes em “contextos de relações de poder altamente assimétricas”, como o colonialismo, o racismo, o machismo. Uma zona de contato acontece quando sujeitos historicamente ou geograficamente separados se cruzam e se entrelaçam, constituindo-se mutuamente na relação com o outro. Mais recentemente, Donna Haraway (2022) reelaborou essa noção, ampliando-a para relações “mais-que-humanas”, isto é, entre diferentes espécies de seres. Segundo Haraway (2022), as zonas de contato estão “repletas de perigo, com práticas de encontro e conquista, mas são também locais de possibilidade, locais onde a paz pode ser feita”, isto é, negociada.
Ouso afirmar que o processo de realização da exposição, desde o primeiro encontro com Fátima Medeiros na praça da Sé, justamente o mais antigo ponto de prostituição em atividade em Salvador, deu-se numa zona de contato entre “nós” e “elas”, as prostitutas. Segundo Prada (2018), “a sociedade quer que fiquemos no lugar que ela nos reservou, o único espaço possível para mulheres como nós: o espaço da precariedade, da exclusão, da marginalidade, da clandestinidade, da violência”. Criamos juntas um outro tipo de lugar: da aproximação, do encontro, da escuta, do acolhimento, de trocas e interações improvisadas e imprevisíveis, ninguém saindo dessa experiência da mesma forma que entrou. Na verdade, podemos resumir esse lugar numa única palavra: zona.
Termino contando uma história. No verão de 1970, já um tanto decadente, o Meia-Três foi visitado por Janis Joplin, em sua fulminante passagem pela Bahia, poucos meses antes de falecer. Dizem que bebeu cachaça pura a noite toda com as putas, se dando bem com todas, até cantando com elas cantigas de candomblé. Dizem também que o guitarrista da banda do bordel reconheceu a ilustre visitante e puxou alguns acordes de “Summertime”, aí “baixou um santo nela, se ouriçou, saiu derrubando tudo”. Uma amiga dessa temporada entendeu o que se passava: "ela se sentiu atraída por aquele lugar que era bem vulgar. Era a zona. Era onde ela se sentia à vontade, se sentia bem, onde não tinha cobrança. O lugar que ela mais gostava de ir era na zona. E a gente levava." Lembro o que falava o saudoso Gey Espinheira: na zona, experimentamos a liberdade de ser divergente.
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(1) Arquiteta Urbanista formada pela USP (1997), atualmente doutoranda no PPGAU/UFBA.
(2) Essa frase de Lina, citada por Marcelo Carvalho Ferraz, foi dita em referência ao Centro Histórico de Salvador, onde a arquiteta trabalhou na 2ª metade dos anos 1980, recusando-se a usar o termo “revitalização”, uma vez que vida ali não faltava, e “com que força”. Ver no https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/08.096/1885, última consulta em 13/01/2024.
(3) A escolha do MUNCAB para abrigar a exposição foi sobretudo por se localizar numa área tradicional de prostituição, nas proximidades da praça da Sé e das ladeiras da Montanha e Conceição, acreditando que facilitaria a participação das trabalhadoras sexuais nas atividades propostas, o que se mostrou um grande acerto.
(4) Ver https://m.folha.uol.com.br/mercado/2015/06/1648531-grupo-compra-123-imoveis-e-pretende-revitalizar-o-centro-historico-de-salvador.shtml?cmpid=menupe, última consulta em 19/01/2024. Atualmente, vários imóveis se encontram emo bra na área, e já foram inaugurados dois importantes empreendimentos, os hotéis Fera Palace Hotel e Fasano.
(5) Ver https://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/05/1634681-apos-fortes-chuvas-em-abril-casaroes-historicos-de-salvador-sao-demolidos.shtml?cmpid=ggfolha, , última consulta em 19/01/2024.
(6) Em julho de 2015, com apoio de organizações de bairro e movimentos sociais que atuam na região do Centro Antigo de Salvador, elaborei um dossiê apontando diversas irregularidades nas demolições feitas nas Ladeiras da Montanha e da Conceição, encaminhando-o ao Ministério Público Federal e ao Ministério da Cultura. Este documento, que acabou se tornando uma peça importante para a demissão do então Superintendente do Iphan da Bahia, pode ser baixado através do blog Cidades Possíveis, com acesso pelo https://www.cidadespossiveis.com.br/single-post/2015/08/06/Centro-Antigo-de-Salvador-outros-500
AMADO, Jorge. Tereza Batista cansada de guerra. São Paulo: Martins, 1972.
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