Exposição “Mulher-Dama”: arte, cidade e prostituição na zona de contato

Silvana Olivieri (UFBA) (1) _

Prostituição, bebida, drogas e crime, quer coisa mais viva? Lina Bo Bardi (2)

O presente artigo traz o relato e a análise da minha experiência em relação ao mundo da prostituição feminina no processo de curadoria e realização da exposição “Mulher-Dama”, que ficou em cartaz por dois meses, entre janeiro e março de 2018, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira - MUNCAB, localizado no Centro Histórico de Salvador, projeto financiado pelo Fundo de Cultura do Estado da Bahia, através do Edital Setorial de Artes Visuais 2016 da Fundação Cultural do Estado da Bahia – FUNCEB, com produção executiva da Giro Planejamento Cultural (3).

Numa parceria com a Associação de Prostitutas da Bahia, a APROSBA, além de um ensaio fotográfico inédito de Flávio Damm, mostrando o cotidiano do alto e baixo meretrício de Salvador em meados da década de 1960, a exposição contou também com oficinas artísticas com mulheres cis, trans e travestis que “batalham” no Centro Histórico, e uma mostra audiovisual acompanhada de bate-papos com lideranças locais e nacionais do movimento de prostitutas, ou “putativismo”. Pretendo mostrar como esse processo se constituiu no que Mary Louise Pratt (1991), considerada uma das pioneiras dos estudos decoloniais, definiu como uma “zona de contato”, um espaço onde culturas díspares se encontram, se chocam, se entrelaçam.

O contexto

Entre os anos de 2014 e 2015, houve uma série de investidas articuladas dos poderes públicos municipal e estadual e da Superintendência do IPHAN na Bahia a fim de expulsar a população que há mais de um século residia e/ou trabalhava nas antigas ladeiras da Conceição e da Montanha, ligando a Cidade Alta à Cidade Baixa, no Centro Histórico de Salvador, basicamente ferreiros, serralheiros e marmoristas, os artífices, além de cafetinas e prostitutas. Não por coincidência, nesse mesmo período era anunciado um projeto de “revitalização” da rua Chile e seu entorno, na vizinhança dessa área, concebido por um grupo de empresários do setor hoteleiro e imobiliário com inspiração no Meatpacking District de Nova York, voltado para um público de alta renda (4).

Em maio de 2015, a prefeitura se aproveitou de uma tragédia – o desabamento de um muro de arrimo durante uma forte chuva, causando a morte de uma moradora - para demolir, num intervalo de apenas três dias, mais de trinta imóveis nas duas ladeiras, incluindo alguns casarões centenários, despejando seus ocupantes. “Em 40 anos não se fez nada, mas em 72 horas os tratores foram reunidos para destruição daquela área. É como se a degradação do patrimônio fosse planejada”,  observou Luiz Antônio de Souza, arquiteto urbanista e professor da UFBA (5). A destruição só não foi maior porque o episódio teve grande repercussão nas redes sociais e na imprensa, sobretudo por se tratar de uma “área de preservação rigorosa” pelo IPHAN, tombada como patrimônio da humanidade pela UNESCO desde 1984 (6).

Desde o início, os artífices mobilizaram uma vasta rede de apoio, acabando por conseguir permanecer com suas oficinas nos arcos da ladeira da Conceição. Integrando esse movimento, muito inspirado pelo Ocupe Estelita que acontecia em Recife, notei que quase ninguém ali se preocupava com a situação das prostitutas, cujos locais de trabalho e moradias foram demolidos sem qualquer assistência nem indenização. Foi quando pude constatar que, em pleno século XXI, esse continuava sendo um dos grupos mais desprezados e estigmatizados em nossa sociedade, cuja existência não importava até para gente bastante engajada nas lutas de classe, raça e mesmo gênero.

Essa situação mexeu comigo. No começo dos anos 2000 morei no bairro Dois de Julho, convivendo diariamente com prostitutas, tanto mulheres cis como travestis, minhas vizinhas. Foi também nessa época que conheci o Manilla’s bar na ladeira da Conceição, o último “castelo” de Salvador, que Jorge Amado frequentava. Marinalva, a dona, dizia que “contava meus segredos para ele, e ele me colocou em um de seus livros”. Segundo o sociólogo Gey Espinheira (1984), castelo era um tipo particular de bordel, organizado como uma comunidade de mulheres, criando laços de amizade profundos e fortes. Uma comunidade unida, liderada pela “casteleira”, uma espécie de matriarca que as jovens costumavam chamar de “mãezinha”, pessoa de grande experiência e que conhecia todas as faces da profissão.

(Cont.)